sexta-feira, novembro 17, 2006

O Último Ar

A manhã começa a dar os primeiros sinais de um dia quente. A sala é abafada e cheira a tabaco, ao som de música instrumental. Ago celta.
Ele abriu a porta, com um olha de “já está ai?”, e pediu um momento.
Ao entrar, o de sempre há anos: O livro do Lacan embaixo do porta retrato, a mesa de mogno envelhecida, carcomida mas imponente. Na penumbra, o barbudo neurastênico, sempre, junto à parede observando, transcendia a pintura.
“Eu sei, sou uma mulher privilegiada. Uma mulher capaz de sentir um amor que muitos jamais irão sequer entender”...”Não consigo suportar o peso da minha própria existência; não tenho mais ânimo pra resistir e me levantar, não tenho por quê”.
Não tem porquê? O que você não tem, na verdade?
... “é como quando se vê duas pessoas que andam lado a lado, à distância, em nossa direção. Elas parecem mesmo estar lado a lado. Mas apenas caminham na mesma velocidade, uma a alguns passos a frente da outra”.
“Não diga elas, diga eu”.
“Sim, sim... em algum momento pode até parecer que conversam, que compartilham o mesmo trajeto diariamente, mas nunca se viram antes. É assim que eu me sinto em relação ao mundo”.
“Às vezes, andar lado a lado não significa estar junto, afinal”.
“Olho para ele, é como se fosse dizer algo, mas estou distante. Imagino quantos são os que de dentro de seus próprios passos, como eu, já imaginaram andar lado a lado”.
“Mas eu e ele, sabe, vivemos no mesmo tempo e em tempos diferentes. Eu estou... estou...”
“Está? Como você está?”
“... morta”.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Monografia (ou... ode aos títulos explicativos)

Meus olhos, se revoltam, exaustão precoce. Escreve é m,ais simples quanto você não está tentando convencer que está certo. Eu não costumo ligar muito, mas dessa vez, o método exige. Vou deixando pequenos pedaços de mim na tela do computador, coisinhas que eu venho acreditando nos últimos anos, e que o meu orientador vai mandar tirar se tiver o mínimo de bom senso. Torcer para que não tenha. Não vai sobrar nada. Às vezes, prefiro me imaginar incompreendido, mas não ignorado. É preciso frisson, e agora em conjunção com os ouvidos e olhos do mundo.

sábado, outubro 14, 2006

Av. Brasil

- Tio, porque os homens da televisão no debate se ofendem tanto?
- Isto é política menino...
- Mas tio, tá engraçado, um fica falando que é melhor que o outro
mas, pelo visto, os dois roubam, né?
- É, pelo que os dois mostram...
- Mas tio me explica uma coisa que eu estou curioso... Se os dois têm provas que ambos são desonestos, por que é mesmo que vamos votar neles?
- Por que vivemos em um país democrático, menino, e nosso voto é obrigatório.

segunda-feira, outubro 02, 2006

Eu queria te dizer que...

Tenho mania de querer inventar moda às vezes. Uma delas, de tentar inventar a cada dia um jeito diferente de dizer que seus olhos são lindos. Tentar reconhecer você em mim por meus próprios gestos. Você me capta de um jeito que, ainda que me visse filmado, eu não perceberia. Até aquele movimentozinho que você faz com a boca, a forma de você ajeitar meus óculos.

O silêncio de hoje é diferente do silêncio de quando conversamos pela primeira vez. Aquele que tinha o peso do suspense, do talvez nunca mais nos falarmos. Se aquele ônibus tivesse atrasado ou adiantado. Eu tenho medo só de pensar no que poderia não ter acontecido. Se eu não tivesse me sentado ao seu lado, apreensivo, com curiosidade e um coração batendo mais forte.

Não é necessário inventar uma forma mais complexa de dizer as coisas. Você sabe disso muito bem e, por isso, diz com os olhos. Não há momento melhor no dia que aquele em que olho dentro dos seus olhos e sinto sua respiração. Olhos cansam fácil, parece que deveriam se agüentar mais nos detalhes. Dos seus olhos que deixam serem vistos e que me deixam ver para além deles.

terça-feira, setembro 26, 2006

O maior post que eu já escrevi

ai ai, velha diferenciação aristotélica entre potência e ato...

que entende de eletrônica sabe que é possível sim simular com perfeição os analógicos, em teoria. em teoria, pq vc precisaria de tecnologia tão avançada para imitar a onda igual, que, até o presente momento, não é economicamente viável.

enfim, na minha opinião, nas modulações tem tudo pra os digitais desbancarem os analógicos, até porque a tecnologia permite em muito expandir os limites por aí. Quanto a distorções, acho que vai demorar muito ainda, se é que um dia o analógico vai ficar obsoleto realemnte.

alias caso isso aconteça, temos outro problema: os grandes efeitos digitais em maioria são simulácros de efeitos analógicos. se estes caírem em desuso, o que os digitais vão imitar. é só conferir os efeitos próprios da line 6 pra ver que criatividade não é lá o forte deles, é mais emulação mesmo.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Depois e Antes de Viajar

Descubro que o silêncio é uma virtude. Nem todos os silenciosos sabem disso, por certo, e 90% dos tagarelas como eu achariam a afirmação inverídica. Mas uma das poucas vantagens de se ficar mais velho é duvidar dos estereótipos. Saber que nada é tão preto e branco que não se possa construir em tons de cinza. E fico dos mais satisfeitos por ser essa soma de contradições inexatas.

Porque a gente pensa demais, quer muita coisa, mas nem imagina outras. A gente se dá por vencido muito fácil e não se dá ao direito de pedir demais da vida. Eu costumava exagerar nos pedidos e ainda assim ganhei mais do que o esperado. Do que o merecido, também. O que é muito bom, porque o silêncio dela me olhando com aquele sorriso feliz não tem preço, nem no pensamento.

Descubro um sentimento inventado a partir do barulho do meu coração, melhor que o da TV. Que faz sentido e esquenta minhas orelhas. Que às vezes me aborrece por não ter chegado antes. Mas, como no cinema, tudo é questão de timing. Não importa o enredo quando a seqüência é bem construída e, às vezes, só quando a gente tira o som é que se percebe a pureza dos olhares.

sexta-feira, setembro 01, 2006

A mágica atrelada ao sonho
Demiúrgica
O lugar onde tudo é indeterminado
Não existindo, nada existe

quinta-feira, agosto 31, 2006

"O caminho dos justos é rodeado por todos os lados pelas injustiças dos egoístas e pela tirania dos homens de mal. Abençoado é aquele que, no nome da caridade e da boa-vontade pastoreia os fracos pelo vale das sombras, a quem ele verdadeiramente protege, e encontra suas crianças perdidas. E eu atacarei com grande fúria àqueles que tentam envenenar e destruir meus irmãos. E você saberá que sou o Senhor quando minha vingança cair sobre você. Falo isso faz muito tempo. Eu nunca pensei realmente o que isso significava. Pensava que era algo pra dizer a um filho da mãe, antes de atirar nele. Mas, eu vi uma coisa hoje de manhã que me fez pensar duas vezes. Agora, fico pensando: Pode significar que você seja o homem mal. E eu sou o homem justo. E o Sr. 9mm aqui é o pastor protegendo os justos no vale da sombras. Ou pode ser que você seja o homem justo e eu o pastor, e é o mundo que é mal e egoísta. Eu gosto disso, mas não é a verdade. A verdade é que você é o fraco. E eu sou a tirania dos homens de mal. Mas eu estou tentando. Estou tentando mesmo ser o pastor." [Jules, Pulp Fiction]
Os dias em que a comida quase não passa pela garganta são como se fossem os últimos que teremos em nossas vidas. E o quase é mesmo por pura falta de opção.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Insônia. Páginas virgens espalhadas pelo chão. Letras poupadas na erosão do tempo. Inércia. Livros empoeirados. Ausência de movimento. Trânsito parado. De volta, há livros, mundo, notícias, blogs. O ar é translúcido, mas irrespirável. Rinite. Um único batimento cardíaco, depois outro e outro. Critérios e afinco. Exeqüibilidade. Evitar o dia seco. Tempo corcunda.

terça-feira, agosto 15, 2006

B

Nossa cultura nos ensina que o mundo não é completo sem nós. Que nós nascemos para conquistar o mundo, pois ele é uma selva que precisa ser controlada. Porque é esse o destino e propósito da criação. Que a nossa história é a única história, e que as outras culturas são primitivas e atrasadas. Mas é a humanidade que destrói o mundo, não a natureza. Erupções vulcânicas e tsunames são café pequeno perto do estrago que causamos ao nosso ecossistema todos os dias. A idéia é olhar para nossa própria cultura e pensar o que realmente queremos dela. Nossa civilização é o ápice e não há nada além dela? Recuso-me a acreditar que nossa sociedade está tão certa quanto pensa, e tão sem salvação quanto parece.

sexta-feira, agosto 11, 2006

O Planeta

Ontem eu vi. Marte, mais brilhante. Meus olhos nus, seu brilho rivalizando a lua cheia. Li que no dia 27 vai estar mais próximo a Terra. À meia-noite e meia, vai ser como ver duas luas. Outra. A próxima vez que Marte ele ficar tão perto assim, o planeta estará em 2287. E ninguém que vive hoje terá oportunidade de observar isso novamente.

Uma história parada, que nem sequer consegui escrever até o meio. E agora o cheiro do café ao lado e minha ânsia de parar o tempo. Mas não é preciso parar para sentir, é preciso coragem. É bem mais do que tudo o que normalmente a gente vê na TV ou livros. Não é questão de estilo, de gosto, ou opinião. Tudo surge de uma decisão solitária.

Sentir é caráter. E o meu jeito quase vem de uma incompetência de ser diferente. É não encontrar uma desculpa para se adaptar ou fugir. É uma obstinação que supera a lealdade. E que assusta. Que não se diminui com a insegurança, mas se aumenta. É preciso algo que vem de dentro, um sustento para vencer o receio de ser incompreendido.

Para não esquecer de repetir para conferir se há claridade. Grande parte das vezes, é não precisar dizer por que. É andar desavisado de gramática, é o medo normativo, é a vírgula entre o sujeito e o verbo. É o que tenta ir alem do que a memória consegue se lembrar, e que eu carrego na minha sacola pra onde quer que eu vá, em qualquer tempo.
- Alô, Coordenadoria para Assuntos Extraterraplaneres, Secretaria do Além, Sr. Quiroga falando.
- Fala...
- O que?
- Você sabe...
- Sei do que, que tá falando?
- Sou eu, agora fala.
- Que bicho te mordeu.
- Ansiedade.
- Uhmn... tá. O tempo da realização de seus sonhos maiores e melhores não foi sepultado, apenas protelado. Pelo que sei, voce não deveria gastar um instante sequer lamentando-se por ter seus recursos concentrados em emergências.
- Ahnm. Valeu, agora tenho que ir. Abraço.
- Abraço.

segunda-feira, agosto 07, 2006

Mareador

Era um tempo em que não se julgava sonhar. Era vítima do se achar são. Era um outro gosto por viver, viver, viver. Era o voltar ao início com novo ânimo e novo gosto. Era gostar mais de si mesmo, e nunca se satisfazer. Era um pensar desconexo, uma flâmula anexada num papel de bom-bom. Era de se excluir palavras repetidas. Era para decidir pensar melhor na vida, e resolver por dizer sim ao sim, e não ao não. Era um tudo ou nada flexível, calculado. Era de se voltar atrás pra dizer que sente falta. Era um tempo em que, pra se viver, era preciso saber esperar. Era uma hora feita de sorrir, além. Era posar de forte para o bicho papão, encolhendo a bexiga. Era um dosar de contramão, era sinuoso o olhar em direção ao que se perdeu. Era mera previsão, um remar de maré alta na escuridão. Era de se esperar no cais. Era apenas nada de mais.

domingo, agosto 06, 2006

Pluricelular, apartidário, imperfeito. Tenho ouvidos irritados e olhos míopes. Prefiro falar baixo. Já desisti de ter um penteado decente. Já pratiquei quatro dos sete pecados capitais, e desrespeitei metade dos dez mandamentos. Bom gosto para consertar a tristeza démodé. Sou careta. Natural, como a distração. Gosto de olhares, rascunhos e tudo o que tem brócolis e couve-flor. Sinto-me pelado sem um relógio. Faço pequenos piques nas horas tentando estender o tempo. Menos explosivo do que deveria. Não bebo, não fumo, nada de ilícito ou hiperdosado. Faço que mais gosto de fazer, com quem mais gosto de fazer. Mais ansioso do que às vezes consigo suportar. Já curei muita insônia com Kierkegaard e Cartoon Network. Procuro o colorido de toda paisagem. Costumo desconfiar dos excessivamente simpáticos. Encontrei beleza em uma Gibson Lês Paul seis meses antes da primeira paixonite aguda. Acho que escrevo mal. Trânsito não me estressa. Aprecio muita percepção, improvisos sem linguagem de dicionário. Abstrações plenamente compreendidas, chorar para mim mesmo. Gosto de janelas. Interessam-me os detalhes, os pontos de fuga. Adoro, descubro, cada detalhe, cada palavra nova, neológica, cada jeito diferente de falar a mesma coisa. Cada jeito diferente de se ver uma nova paisagem. E fico quietinho, só sentindo. Aprecio atalhos mais longos. Os nomes diferentes para um mesmo lugar. Sei do único jeito que se pode conhecer, que é vivendo. Descobri que o melhor caminho entre dois pontos pode ter muitas curvas. Agora tenho atitude, assumo meus desejos, corro atrás deles, me surpreendo. Aprendi com alguém a ler o que está escrito entre duas linhas. E que voar é mais uma questão de se sentir leve do que se livrar do peso.

quinta-feira, julho 27, 2006

Respirando ofegante. Protegendo meus pés do chão, experimentando o sonho a cada amanhecer. Ouvindo minhas palavras, exatas, não planejadas, saindo gagas e hesitantes como se não servissem para outra coisa a não ser estar ali. Cada uma delas colaborando com a certeza de que sempre estive errado, não pelo engano, mas pela inconsciência de que estive certo. Sentindo o silêncio suave do vento morno que entra pela janela afaga a cortina. Não medindo sentimentos pela minha alegria, mas pela alegria de quem eu compartilho. Não sendo desinteressadamente independente. Não querendo estar sozinho, nem ao morrer. Evitando o um desenrolar óbvio de acontecimentos. Querendo sentir tudo o que não está escrito. Sabendo de estar experimentando algo único. Surpreendendo-me com o simples. Sentindo que há coisas que não se adivinham, mas se escrevem todos os dias.

sexta-feira, julho 14, 2006

Dois patinhos e uma lagoa

Eu não costumo ter contato visual com boa parte das coisas que me são essenciais na vida. O ar que respiro, circunda e oxigena, e é invisível. A água que eu bebo, não tem cor, não tem sabor, não tem cheiro. O tempo que tanto prezo, que o máximo que posso é vê-lo passar e, na maioria das vezes, não há tempo pra isso. A música que eu faço e ouço só tem cor e sabor depois que entra em meus ouvidos. E por algumas vezes e vezes a vida me pareceu desbotada e eu me prestei daltônico diante dela.

E correr muito me fez bem e muito me fez mal. E procurar me fez achar tudo de bom e muito do ruim também. Mas nada impede de guardar as lembranças de minhas desventuras em álbuns de recordações, e de levar a minha sorte comigo na sacola, pra onde for. E de me sentir feliz por estar vivo, me sentir assim até quando triste. Por ter sangue correndo nas veias, o invisível ar nos pulmões, e o invisível-indizível que aquece no coração. Ah, sim, esse invisível agora tem nome, tem cor e tem cheiro.

Nesses 22 anos, eu me reservo o direito de mudar quantas vezes foram necessárias pra continuar sendo quem sou. De sonhar acordado. De gritar na tempestade, e me paralisar com a relva da manhã. De nunca me arrepender de ter feito alguma coisa sem me arrepender de não ter feito algo antes. Guardo-me a proeza de ser único, sem ser melhor que ninguém. Reservo meus motivos. Reservo a mim também o direito a cultivar um sentimento sem nome. E de rir de mim mesmo ao pensar na minha vida.

segunda-feira, julho 10, 2006

ººº
Costumava achar que quanto mais o tempo passasse, mais entenderia das coisas. O tempo foi passando e fui entendendo cada vez menos. Sem ter o que entender, entendia nada e entendia o nada. Desentendia. Daí se vê que não entendia quando achava que entendia e, hoje, que não entendo nada, entendo um pouco mais. Entendo que muita coisa a gente não vai entender, embora não seja motivo pra parar de questionar. Outras coisas não tem explicação, e está muito bem assim, obrigado.

sexta-feira, julho 07, 2006

Testomontaggi Spontanea


Mexe os ombros para as dificuldades. Com o rosto bem iluminado, não da luz que entra, mas que lá reside. O sol apenas acompanha suas vestes. Eu o garoto que sente e quer ter braços maiores para a segurar com mais força. Cada momento é único e não dependem uns dos outros pra serem felizes. O impensável levemente substituído pelo passeio da borboleta. E a atenção está nela. Não no que foge do cotidiano e não imaginam que a realidade também é magia. Momentos riem do insólito inventado. Só dão o ar da graça a quem dispensa interpretações. E com o tempo, mesmo que sem explicação, o surreal se torna cotidiano, simples e essencial. E o impressionista, perdido em borrões, não entende o sonho e vive míope ao simples.

Nota: esse texto foi editado, sendo apenas parte do original.

quarta-feira, julho 05, 2006

O Porão

ººº




Vivia nos bastidores da alma. Gostava de sonhar aquele sonho só.

Interpretava A vida se tornado sem graça que se contentava em navegar na superfície dos outros.

Sentia falta do palco. A consciência perdida meio a cordas, roldanas Alçapões que levavam onde estava.

Por vezes, escrevia linhas herméticas. Roteiros-rodeios que não eram peças Não levavam a lugar algum e ninguém aplaudia.

Escondia detalhes para tomá-los seus Talvez por isso tivesse se mudado Tornado tudo tão baixo.

Mas nunca havia se incomodado em decorar o lugar com flores O que explicava porque ninguém mais permanecia ali mais por muito tempo.

Gostava era de decorar as rachaduras na parede E, ao lambê-las, aumentavam Ruía a estrutura Estava desintegrando, mas simplesmente não queria partir.

Não entendia Preferia ficar remoendo Ocupando-se do inevitável Quando a lucidez desse falta era tarde demais para pedir que voltasse.

O local estava vazio.

Não havia mais ninguém pra criticar.

Era melhor não chorar.

Melhor transparecer o que não era.

Porque talvez fosse o único lugar onde poderia estar.

Ficava lá A porta trancada A ausência.

As chaves estavam em seus bolsos Mas havia se esquecido.


Outra vez, Quiroga (isso devia ser um verbo... eu "quirogo", tu...)



Resista, você não precisa reagir a cada provocação, pois no caso da atualidade isso é feito, justamente, para desviar o foco de sua atenção, perdendo assim uma energia preciosa. Resista, continue agindo de acordo com seus planos.

terça-feira, julho 04, 2006

201


Inspirou. As luzes acesas e a sombra nas cadeiras sufocavam, as persianas e a estante cheia de livros pareciam dobrar-se. Sem coragem, fechou os olhos. A visão era a mesma, com a exceção de que rodava. Abriu a boca para gritar. Silêncio. Preguiça de incomodar os vizinhos, aprontar confusão. O gancho do telefone pendulando. Vago. O encanamento contorcia e os barulhos insistiam em enroscar ao pensamento. Lembranças. O pequeno canário canadense tamborilava um canto nervoso. Ouvindo gente se espalhando por sobre as calçadas dos bares.


A mancha escorria vermelha já molhava a camisa, esticava e espremia no ritmo dos latejos da cabeça. Medo da imaginação. Ficava de fora, não tomava parte naquilo. Perdendo o ar, a liberdade, e sumindo. Lembranças. Encolhendo a cabeça dentro das inúmeras rachaduras do piso. A porta rufava e não queria calar. Sentia os pés surrarem o mogno belamente esculpido. Incômodo. O pulmão arfava em se soltar, se perder na agonia pulava por dentro e ofuscava as vistas. Obnubilando a centelha de vida. Pensamento pensando pensares que não se pensa.


Não queria levantar pra pegar água. A sede tinha diminuído e quase não incomodava. O copo vazio e a sentença. Colado ao chão. O canário tinha abaixado o volume, entoava tristes e curtos sibilos. Os rufos do mogno cessavam, sobrara o rangido do metal. Longe. De repente, tudo virou silêncio. Pessoas entrando correndo pela porta escorrendo pelas frestas da madeira. Sobravam livros, luzes e o canário. Lembranças. Encostou o ouvido no chão e tateou lentamente. Pensou que, caso se concentrasse, ouviria o seu coração bater. Expirou. Silêncio.

sexta-feira, junho 30, 2006

ReleituraS (ou... ainda sobre o existencialismo)

O existencialismo funda a liberdade e a responsabilidade do homem. Existimos sem que sejamos antes definidos. Nada nos precede. O medo do desamparo e do desconhecido. Mas, fora isso, ando vendo que os existencialistas também consideraram de tudo um pouco. Kierkegaard era cristão dedicado, Dostoievsky era greco-ortodoxo fanático. Beckett era burgues e protestante, mauricinho. Sartre não acreditava em força divina, e Heidegger só pensava definir o famoso Ser. O existencialismo deixa o homem pelado no meio do deserto, por tornar cada um mestre de seu destino. Pela impossibilidade de ser recompensado por uma força maior que o acaso.

Então, chegamos a três corolários:

A vida está repleta de absurdo; (gosto de pensar sobre isso)

A espécie humana tem livre-arbítrio; (discordo)

A vida é uma série de escolhas. (concordo plenamente)

A mim, fica o peso da responsabilidade de sermos livres. E eu só não discordo totalmente com essa plena liberdade porque as regras sociais são o resultado da tentativa dos homens de limitar suas próprias escolhas. E como bom behaviorista, considero que a liberdade é contingencial. Então, falo de liberdade e não de livre-arbítrio. O que me leva a tirar algumas conclusões. Talvez, a grande vitória do indivíduo é perceber o absurdo da vida é aceitá-la. Porque são muito poucas decisões não têm nenhum tipo conseqüência negativa, e também são poucas as situações ruins que não têm um lado bom. Mas, se você toma uma decisão, deve levá-la até o fim.

Assumir responsabilidades. Essa definição deveria ser adicionada ao verbo “crescer” no dicionário. Porque ao crescer, vemos o peso da responsabilidade de sermos livres. As regras sociais nada mais são do que resultado da tentativa dos homens de limitar suas próprias escolhas, de por abaixo um ideal de que podemos simplesmente fazer o que quisermos. Frente a isso, o ser humano se angustia. Porque a liberdade implica escolha, que só o próprio indivíduo pode fazer. A que a própria "não ação", por si só, já é uma escolha. Arriscar-se, procurar a autenticidade, é uma tarefa árdua, uma jornada pessoal que o tal Ser deve empreender em busca de si mesmo.

Mas sinto que tudo na vida é uma questão de escolha. Todo e qualquer comportamento, regido pelos mesmos princípios. Passei dois anos estudando esse tema cientificamente, bebendo das melhores fontes. E ainda o faço com afinco. Mas embora todo o cientificismo racional tenha me feito bem, continuo ainda a precisar do absurdo. O segredo parece ser aceitar e viver as conseqüências de nossas próprias escolhas, mesmo que não sejamos inteiramente livres. Mesmo que, mesmo após tanta vida e tanta carga, tanto estudo, ainda tenha precisado encontrar alguém que me ensinasse que a felicidade também é uma questão de escolha. Que escolher também é ser feliz.

domingo, junho 25, 2006

38

°°°

As velas já tinham parado de queimar. As flores ensaiando o murcho. Entrou pela sala, sem saber o que dizer. Muito porque não havia algo que pudesse ser dito. Porque sabia que poderia ter sido um pouco mais disponível, ou ao menos ter chegado mais rápido. Aproximou-se, e ela, ao lado do caixão, levantou-se e o abraçou. Mudo, porque sabia que ela não ia ouvir. Há muito ela já não ouvia bem. E ela só queria falar, já que sabia que aquele era o momento em que tudo deveria ser lembrado, sob pena de virar esquecimento. E ele só queria tirá-la dali, livrá-la da dor.


Penalizou-se porque sabia que deveria ter estado ali antes. Não para salvar ninguém, porque entendia que não poderia ter feito nada. Mesmo antes de ele nascer, seu tio já era alcoólatra. E todos ali sabiam que não aquilo não ia durar. Que talvez tivesse sido o melhor para ele. Sabiam que não tinha mais condições de cuidar da própria vida, já há alguns anos. Tinha perdido o motivo. Todos entendiam isso e choravam. E, se choravam, era por eles mesmos, não pelo corpo. E de repente percebeu que, mesmo na tristeza coletiva, nada é mais particular do que o sofrimento.


E viu-se consolando pessoas que mal conhecia. E ajudando a resolver pequenos problemas que, dada a situação, era o mínimo que podia fazer. E se viu fora de si, observando de cima. Dividiu-se entre o que precisava fazer e o que precisava pensar. E as partes trabalharam melhor em separado. Ele, que queria se sentir mais culpado, acabou por se fortalecer mais um pouco, embora isso não o tivesse tornado mais alegre, ao momento. Esperou para chorar depois do enterro enquanto, sozinho, saboreava um sorvete, que é mais gostoso em praça de cidade do interior.

°°°



A todo espírito sem descanso.

quarta-feira, junho 21, 2006

Solidão é o que você segura as entre as mãos logo após retirá-las dos bolsos vazios.

... [porta batendo]


- Oi, Sr. Quiroga.


- Oi! Como vai?


- Vou... indo, por aí...


- Uhnm...


- Tentando alcançar discernimento suficiente pra ser o adulto que hoje me assombra antes de dormir.


- Ahnm... muito bom.


- E o que o senhor tem pra mim?


- Algo bom. Chegou a hora de você brilhar, e fazer isso a despeito de qualquer insegurança. Não que o temor vá embora. Continuará ai, como pano de fundo de seu pensamentos.


- Então...


- Então não é ele que guia seus passos. Você sabe o que te guia agora?


- Sim. Sei sim.

terça-feira, junho 13, 2006

SobrE HojE (ou sobre qualquer outro dia)


Não gostava de datas representativas, do convencionado. Em verdade, achava que não fazia diferença alguma, porque sempre achou que não era a data o importante.

Mas tinha escolhido aquele momento específico para contemplar algo de raro: o encontro precioso do que não se pode classificar com o que não se pode avaliar.

Não acreditava mais que pudesse ser possuidor de palavras, de termos suficientes para definir com razão e consciência tudo o que, na verdade das entrelinhas, já falava por si.

Lembrou-se de que já tinha visto tantos dizerem absurdos ou ligarem aquilo a fisiologias. Falarem com algum conhecimento de causa do que certamente desconheciam.

E há muito ia que não se dava por sonhar. Em sua teoria obsessiva, considerava que sonhar equivalia a destruir qualquer chance que o conteúdo se tornasse real.

Achava que nada se materializa igual ao que se sonha. E não queria ter idéia do que o mundo pudesse pensar a seu respeito, do que francamente já não importava.

Assim, tinha motivos evidentes para rir de si. Ria com gosto e sabor. Ria em cores que não se escondem. Gostava de se encontrar ao descobrir o caminho percorrido.

Por que já tinha aprendido a colecionar sorrisos e isso havia aprendido bem. Mas ainda guardava-os no fundo da alma e não sabia, ao certo, o que significavam.

Foi quando, de repente, conheceu a interprete de sorrisos. E não foi apenas por pura coincidência. Acontece que já havia sorrido para ela, mesmo sem de todo o saber.

Escutou com cuidado, até descobrir todas as partes da música, incluindo o silêncio. E descobriu que o som não findava. Havia se transformado em algo mais que eterno.

Sentiu dois verbos intransitivos se completarem no fim da frase. Sentiu-se parte da imensa e grandiosa energia que circulava nos bastidores de tudo o que era bom.

Viu suas defesas entre o pouco que tinha e o tanto que queria ruírem na hora em que veio a compreensão. Eis que, surpreso, identificou seu sangue perdido em outras veias.

Respirou fundo e fechou os olhos, transpirou. E viu que, ao fim, coragem servia era para isso mesmo. Para fechar os olhos, prender a respiração, pular de cabeça no precipício.

Para se achar no direito de ousar. Para não precisar de sonhos. Para não depender de heróis. Para dobrar o tempo com as próprias mãos e aprender e reaprender a sorrir.


segunda-feira, junho 12, 2006

SobrE AmigoS IMagináriOS (ou.. depois falamos da melhor parte do VIII FICA)



Todos sabem que não tenho muita afeição por pessoas em grandes quantidades. “Em dozes homeopáticas”, é o que sempre digo.

Dessa forma, não costumo "imaginar" meus amigos. Para mim, amigo é uma conseqüência bem vinda da exposição às pessoas.

Bom. Quando você se acostuma a lidar com pessoas, normalmente pára de se surpreender. Muitas vezes, fico assim: fleumático.

Perto das pessoas, caixinhas de surpresa são para amadores. E acontece que seus amigos fazem coisas. Metáfora do Cristal.

Amizade é comida de boteco. A gente não deve esperar nada, e ainda se surpreender quando é gostoso. E virar freguês.

domingo, junho 04, 2006

Então... (entonces, so, ainsi, così, zo, так...)

ººº



ººº


E eis que Deus disse: "Vão crianças! A vida é um parque de diversões!" Há dois anos, eu disse: "Os que habitam essa ilha estão fadados a serem felizes". Agora percebo que fui muito feliz nessa frase. Mesmo que o FICA dure apenas uma semana por ano, para muitos significa muito mais.

ººº

Uma vez eu li algo, que não está entre aspas porque não é literal, mas que era mais ou menos assim: Você acha que, se trabalhar duro e rápido, conseguirá evitar o caos. Mas aí, um dia, você está no quintal, trocando uma lâmpada que tem uma vida útil de cinco anos, quando percebe que só trocará essa lâmpada mais umas dez vezes antes de morrer.

ººº

Faz parte integrante da minha filosofia pessoal: envelhecer esperando pelas coisas é de um total despropósito. Simplesmente porque há muito mais do que se rir do que se chorar.

ººº

Uma vez, aos 11 anos, me disseram que eu não tinha futuro nessa vida. Percebi que era verdade. Eu ainda não tenho um futuro. Tenho um presente, e é com isso que tenho de me preocupar.


ººº



ººº


Fotos de Ângela Scarton. Esse à direita sou eu. Essa foi uma foto de divulgação do Estado no VI FICA. Ou seja: foi muita coiscidência eu achá-la. Ou acaso. Ou destino. Ou como queiram. Ou enfim. Estou de viagem. Boa semana a todos!

sexta-feira, junho 02, 2006

E assim como o jazz, o chá e os fins de tarde ...

ººº



ººº


... descubro que o inverno é amigo do vinho.

ººº

Lembro que não costumava me ligava muito nesses detalhes.

Absorvia sem perceber e transpirava sem escorrer.

Aprendia em porções cavalares.

Toda a racionalidade imatura tendendo ao óbvio.

A sanidade e a sobriedade mantidas com imprecisas repreensões.

Tinha medo do que morava do lado de lá da janela.

Corria por não suportar o vento nos ouvidos.

Não gostava dos semelhantes.

Pessoas, só em doses totalmente homeopáticas.

Acreditava apenas no que estava escrito em grandes caracteres.

E me esquecia do prazer do mais importante.

Que repousa nas entrelinhas.

°°°

Tanto quanto cada suspiro e cada sussurro.

São pequenas coisas agora me são importantes.

Depois de algum tempo, vemos quem dá as ordens dentro de nós.

Não apenas com palavras, mas na sinceridade.

Sai a loucura, entra a compreensão.

segunda-feira, maio 29, 2006

Sobre Sentimentos Oceânicos (De Bons e Maus Selvagens - Parte 2)

.....................................................................................Foto: Loester..............................


Não sei se a idéia é original. Na verdade, acho que não. Quem já leu muito e se considera “experimentado” provavelmente não encontrará aqui nada de importante. Esses, sugiro, parem de ler e poupem tempo. Caso queiram ler algo realmente original, procurem textos de alguem que nunca se contaminou pelo silêncio do mundo. Porque o que eu quero é emprestar voz a um pensamento que me é importante.

De fato, uma experiência desse fim de semana, em Brasília pra variar, me fez pensar. No quanto somos agressivos. Como violentamos a liberdade e o direito do outro em função do nosso bel prazer. Não que eu deseje que isso nunca mais acontecesse, que o tudo fosse calmaria. Seria muita utopia para acreditar. Mas eu desejo que tais assassínios não fossem legitimados. Em que o descabido vil fosse punido.

Sem mais suspenses: o que eu vi foi um homem, doente mental, ser atirado cruelmente de um transporte em movimento. Ele simplesmente não conseguia se explicar e, ao que parece, queria embarcar com sua habilitação de deficiente, concedida pelo Ministério da Saúde. Ele foi hostilizado por feder, não conseguir organizar idéias coerentemente e porque Brasília é curiosamente pouco sensível à subjetividade do outro.

Ver tamanha injustiça e ter ficar covardemente inerte. O que poderia eu fazer, pular também? Hostilizar os opressores? Por ai. Tentei não me carregar da cólera que carreguava no dia anterior, que já havia tendido à insignificância. Pensei que seria inteiramente utópico desejar que nunca mais ninguém voltasse a violentar outra pessoa. Mas exigir que pequenos crimes deixem de ser legitimados, seria uma utopia bem menor.

A idéia é que todas as ideologias, convencidas de que devem fatalmente conduzir ao equilíbrio da sociedade, são utopias muito maiores. Vejo que o mundo progrediu no sentido de se desumanizar, consentindo cada vez mais numa vida habitada pela solidão, pelo silêncio e pelo egoísmo. Então... Bem óbvio isso. Mas o que me espanta é como a “luta” de muitos acaba por se identificar com a falta de trégua, onde tudo é permitido.

Onde a maldade vil é justificada pelo desejo do absoluto. Que quer compreender o mundo e, mais, que o mundo compreenda. Esse é o mundo onde todos somos, em algum momento, carrascos ou vítimas. E nosso ressentimento tente a divinizar tudo aquilo que nos oprime, o que é puro desperdício de energia, e é o que mais acontece nas ruas. Gastar tempo em pequenos pormenores carcomidos que não levam a nada.

O que custava deixar o senhor ir até o hospital em paz? Mais aterrador é pensar que que muitos fazem justamente isso. Gastam seus dias querendo reduzir o mundo a si mesmos. Como se tudo fosse um grande umbigo giratório. Os olhos da garota que me pediu dinheiro na rodoviária, duas semanas atrás. Eles também giravam. Não saem da minha cabeça. Isso foi o que me ocorreu, voltando de Brasília, em meio à palavras cruzadas.

Percebo que Sísifo, apesar de seu esforço, não tinha ninguém à sua espera na montanha. Apenas por isso o momento do rolar da pedra é, para ele, o momento mágico. Seu esforço não tem outra recompensa. Realizo que há outros momentos muito mais mágicos nessa vida. Depois de muito vagar, aprendi que a felicidade, além de ser um acordo com a existência, traduz-se melhor na unidade, que nunca encontramos em nós mesmos.

domingo, maio 28, 2006

N53G


°°°Amanheceu, eu percebi°°°Acordei tarde pra me redimir°°°Faltam pedaços a escolher°°°Por trás de cada anoitecer°°°

°°°Eles não vão nos sufocar°°°Com suas unhas bem feitas°°°Eles só vão desperdiçar°°°Suas juventudes desfeitas°°°

°°°Aconteceu, eu reagi°°°À razão que já cansou de existir°°°Faltam uma parte a recolher°°°Depois de cada entardecer°°°

°°°Pra regular o pranto vencido°°°E rejeitar o jogo vendido°°°Ou se é convencido°°°Esse “primeiro eu” “depois você”°°°

°°°Você não pode nos levar°°°Com sua alma entorpecida°°°Você não pôde nos tocar°°°Naquelas horas perdidas°°°

sexta-feira, maio 26, 2006

O MamutE (ou... um mamute)

Não sabia se era o último dos mamutes. Mas na guerra, sempre havia estado muito só. Antes que o primeiro inimigo tocasse o solo, o último deles recebia suas presas afiadas. Assim era. Enfrentava as situações complexas com precisão cirúrgica. Transpunha obstáculos pesados com os músculos, cultivados com as cicatrizes que aparentava. Uns poucos amigos lutavam ao seu lado, davam cobertura. Lutava porque sabia que morreria e saber isso disso às vezes era como estar já sem vida. E, sem vida, nada havia a perder.

Já que não sabia onde estava, não sabia mais de onde tinha vindo. Dispensava essas informações enquanto parecesse que havia lhe restado apenas um caminho em frente. E não havia vida para o Mamute. Pensava “Sou o último da espécie. Conheci coisas más e senti coisas más. Um bicho ruim eu sou”. Ele se achava o último porque ninguém o conhecia realmente, ninguém sabia quem ele era. Não conseguia entender porque às vezes chorava.

Mas sentia que algo havia mudado, que o agora era diferente. Via o gelo derretendo, a água correndo das montanhas, formando riachos e pequenos lagos. Espantado, ficava a fitar a superfície da água. Sem medo de parecer um Narciso descabido, e perder-se na admiração. Nunca houve esse perigo. Não havia nada a provar. As borboletas estavam ali. E resolveu que, por hora, conversaria com o riacho. Para perguntar o porque de chorar às vezes, se estava tão feliz. O riacho lhe disse que era porque o que o Mamute guardava dentro de si era algo de grande tamanho e valor.

Realizou que vivia como a água que corria, que não escolhia onde ia chegar, ou ainda não sabia como. Foi então que parou de correr. Não que pretendesse ficar assim pra sempre. Foi só pra ver como era, o que sentiria. E foi bom saber que tais segundos simples foram muito mais importantes do que duradouras complexidades. E percebeu que, por vezes, o grande momento não é o golpe bem desferido, mas estar melhor lugar para se apoiar e suportar violência de quem não entende a beleza. Talvez ele realmente não fosse um mamute afinal. Talvez fosse outra coisa, embora não soubesse ainda o que. Mas sabia que ia mudar, que estava mudando e gostava disso. Uma parte de si se jogaria do abismo. A outra enfrentaria a acrofobia característica dos mamutes e ficaria sã.

Seus amigos não entendiam porque ele queria mudar. Afinal, dava-se tão bem nas batalhas do dia a dia. Não compreendiam a mudança porque sempre viam o seu sorriso, mesmo durante os tempos glaciais, mesmo na guerra contra o frio. Mas não viam de verdade, seu verdadeiro rosto. O julgavam por sua fama, por seus sorrisos construídos, dos quais havia se despido muito há pouco, e não pelos sorrisos sinceros. Pela poeira que, sem querer, carregava no meio de todos aqueles pelos. Sentia que tinha sido um contrabandista de si mesmo, no meio de tanta pose. E quando recapitulava, as coisas, de fato, pareciam ficções. Um filme com cortes. Mas não seria mais assim.

Foi quando decidiu que o calor valia a pena. Que o degelo era o mais certo. Que era preciso se despir das ilusões, que ali não eram necessárias, e cortar todo o pêlo que sobrava. Mas achou que, quando se livrasse de todo aquele pêlo que cercava seu corpo, encontraria um boi. Achou isso por perceber que o olhar pousaria com mais calma sobre si mesmo. Sentiu uma ponta de medo. Porque, como um bovino a se contemplar refletido na água, ele se esqueceria rapidamente das questões anteriores. Como quem esquece dos dias que passaram e nem pensa nos dias que podem vir.

Outra ponta de medo. Dessa vez diferente. Daquelas que, antes de virarem pânico, viram coragem. E decidiu que ia livrar-se do espesso manto que o cobria, mesmo correndo o risco de sentir frio. E que lhe desculpassem os ofendidos. Havia mandado todo o ressentimento ir ecoar em outro desfiladeiro, não ia mais incomodar. Daí por vezes pensava no quanto estava desfamiliarizado consigo mesmo. O quanto seus gestos poderiam parecer estabanados e, as palavras, tolas ou mal interpretadas. Um pouco aflito ao pensar nisso. Sabia que uns iriam vê-lo e não gostariam, e outros nem se dariam ao trabalho. Outros ainda o veriam e esqueceriam seus próprios umbigos por um instante, felizes.

E sentiu que gostaria muito que cada um encontrasse em alguém aquilo que ele sabia que havia encontrado. Teve vontade de segurar a cada um deles pelos ombros, olhar em seus olhos e afirmar o quanto isso é verdadeiro. E, depois que fizesse isso, poderiam pensar o que quisessem. Ele já não se imortava mais. Percebeu enfim que, acima dos gestos, o sentimento era o que valia tudo. Era o instinto certo que o fazia tocar naquelas regiões indefiníveis da alma. Aprendeu que, na constância, poderia ser constante. E que, na rotina, o óbvio passava a ser poesia. Quanto o manto caiu, viu que não havia se tornado um boi. Era agora um homem.

terça-feira, maio 23, 2006

PUerilisMO [?] (ou "depois da TV a cabo")

Para que todos saibam como gostava de desenhos animados quando criança. Como achava que todos, incluindo os adultos, também gostavam. E como uma criança pode ficar ligeiramente decepcionada ao descobrir que bolinhas de gude não são indestrutíveis. Que, ao deixar um barquinho na pia do banheiro cheia e puxar a tampa do ralo, ele não permanecerá flutuando no ar enquanto a pia se esvazia. Ele vai descer acompanhando o nível da água. Que imãs não têm formado de ferradura. Que pular do telhado com o guarda-chuva aberto é perigoso. Que não conhece ninguém que levante uma bigorna assim tão facilmente. Ninguém que tenha segurado uma bomba na mão imaginando que ficaria apenas chamuscado, com o rosto em fuligem. Que bater com martelo no próprio dedo dói. Que ninguém tinha reais intenções de machucar. Que havia inocência nesses gestos.

segunda-feira, maio 22, 2006

Espaço do Sr. Quiroga: "Deixe o rio da vida correr, evite tentar ser maior, pelo menos dessa vez. Você pode se perguntar: mas como Eu tentaria ser maior do que o rio da vida? Pois sim, toda vez que você busca impor sua vontade tenta, tambem, ser maior do que a vida".

Diágolo interessante. Em que eu, mais uma vez, fiquei calado.

Em terra de cego... quem vê está no lugar errado

O ocaso vinha longe no horizonte quando os dois, já sentados na mesa do bar, olhavam lentamente o garçom trazer dois copos molhados e um limão partido ao meio. Conversavam.

– E ai, que contas?

– Conto a falta, que sinto neste instante específico.

– Ta. Explica.

– Falo de uma palavra. Sete letras. Que só existe na língua portuguesa. E corresponde a um sentimento muito maior que a razão.

– Saudade?

– É. Por ai.

– Como é isso?

– Olha, eu juro que se fosse pra ficar com esse papo de terapia, nem tinha te tirado da faculdade pra vir aqui...

– Ta. Só conta o que acontece, eu escuto e... cadê a cerveja que não chega?

– Essa falta. Outros tempos me faria ficar pesaroso, inseguro. Agora... não chega à causar propriamente alegria, mas enche o peito com um calor capaz de rasgar os lábios em um sorriso gostoso. E, se fechar os olhos nesse instante, você sente o calor se espalhando pelo corpo, relaxando os músculos e transportando você de volta ao momento saudoso.

– Isso não é saudade. Não stricto sensu. Isso é outra coisa.

– Ah, que bom que você sabe o que eu estou sentindo. Me diz o que é então.

– Quer ver?

– Hum...

– Garçom, agora que trouxe a cerveja, pode por gentileza pedir ao Sr. Adalberto aquele dicionário que ele guarda lá nos fundos? Aquele que eu pedi outro dia.

– Então... Mas e aí?

– Daí que você é um chique. Um europeu que nasceu aqui por azar. Você não sente saudade, uma vez que, como você mesmo disse, isso não existe na Europa. Os suecos sentem falta, isso é chique. A gente por aqui sente saudade mesmo.

– Você falou em Suécia. De onde eu vim, eles sentiam sim. Na falta de palavras. Na falta do absurdo. Por acaso isso também não é saudade?

– Viu? Tanto tempo fora do "Brazil" te fez mal. Te digo cantando: “Se queres compreender o que é saudade, terás que antes de tudo conhecer...”

– Continuar cantando Fagner e pedir que eu vá embora são coisas que mantêm uma tênue distância, você sabia? Eu com a Europa e você com sua tara pelo nordeste e seus frutos.

– Ok, desculpe. O que eu quero dizer é saudade só remete a alegria como quando se é criança. Só. No mais, traz uma certa tristeza pela vontade de ter de volta o que se perdeu. E isso é completamente diferente do que está acontecendo com você.

– Eu sei. Repara não. Tenho motivos para estar bem, contente. Mas às vezes dá um nó aqui no peito... E eu não entendo nada. O choro vem do vácuo e não tem razão de ser porque não estou triste ou deprimido. Não sei, mas tenho a impressão de que é isso que é a verdadeira e essencial saudade.

– Sabe o que é verdadeira e essencial saudade?

– Ahnm...

– Um dia, Minha filha me acordou. Eram 6 da manhã, e ela tinha três anos. Fez então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando eu morrer, você vai sentir saudades?" Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..."

– Nossa, verdade isso?

– Não. Tirei de um texto do Rubem Alves. Mas sei que ela, com três anos, já sabia que a morte é onde mora a saudade.

– Quanto tempo faz?

– Dois anos

– Eu sinto muito. Queira ter estado aqui.

– Não esquenta. Você estava longe, cumprindo seu papel no mundo, que com certeza sempre foi se tornar um cidadão europeu. E você não poderia ter feito nada. Ninguém poderia. Esta me ajudando agora, conversando comigo e agüentando meus resmungos.

– Pode ser que, o que vivemos hoje, é o momento que futuramente nos trará saudades que nos fará sorrir ou chorar.

– A verdade é que a sobriedade do tempo é alucinógena. Tanto faz um dia ou dois anos .

– Chegou o dicionário.

– Sim. Saudade, segundo o Dicionário Aurélio, trata-se de ”uma lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhadas do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las”.

– Hunm... entendi.

– Viu porque você não está com saudades?

– Sim.

– E agora: como é isso?

– Algo que te deixa tão feliz que até dói. Acho que a palavra do dia, em sueco, é "prestationsångest". Significa ansiedade frente a uma realização.

– Correto. Acho que agora entendestes o que estava dizendo: Por cada momento ser uma futura saudade, comemore-o da melhor maneira possível, sendo feliz.

– Outra cerveja?

– Sim. Outra cerveja.

domingo, maio 21, 2006

Capital



Me diz agora aonde ir

Se eu não me encontro em nenhuma rua

E ninguém fica o dia a sorrir



Você sempre anda tão rápido

E eu sigo tão torto

Que não dá tempo de dizer

Que mesmo morto eu te queria aqui



Mas fica sempre bela para mim

E a todos que podem pagar

Que vêem sua virtude de perto



E sempre dorme em paz

Você sempre dorme em paz

Você sempre dorme em...



Eu fico aqui juntado cacos

Que te sobram em todo lugar

De onde você não se percebe

Não acorda e ainda vem negar



E você sempre dorme em paz

Você sempre dorme em...

Sempre dorme em paz

segunda-feira, maio 15, 2006

HildA (ou... vocação para crítica literária [?])

Depois de muito, muito lutar, contra meu comodismo e contra a dificuldade da Obra, consegui terminar de ler “Tú não te moves de ti”, de Hilda Hist. E o que eu posso dizer? Enfim. Resumo. Tadeu é a razão, um empresário bem-sucedido que ao chegar à meia-idade passa a se questionar sobre a própria existência e a vida de aparências que leva em companhia da mulher. Ele deseja seus livros, criação artística e o ostracismo, em detrimento do trabalho administrativo na empresa.

Matamoros é uma menina habituada desde muito cedo ao... ahnm, “contato” com os homens. Sua mãe, Haiága, chama então um sacerdote exorciza-la. E eis que também o religioso se envolve com ela. Ela começa a disputar com a mãe o amor do mesmo homem. Enfim. Complexo de Édipo, que, em Hilda fica bem mais... colorido. "Axelrod" é novamente uma reflexão sobre o tempo e a finitude, que domina o fluxo desenfreado de idéias. Nesta última história, porém, o caos me pareceu mais ordenado. O que, de forma paradoxal, me deixou ainda mais confuso.

Arrisco-me a analisar. Em uma metáfora bem vulgar, eu diria que o livro é como um milkshake de ovomaltine, só que sem leite. Maravilho e denso. Seu modo fragmentado e convulsivo, o modo como ela constrói três histórias distintas entre si, mas conectadas em fluxo de pensamento. Como já dizia a Gestalt, “o todo é maior do que a soma das partes”. E isso bem se aplica aqui. Estou certo de que não entendi tudo o que precisava para satisfazer minhas interpretações, carcomidas pela falta de paciência e tempo para ler de novo.

Apesar de não possuir uma linguagem linear, de não seguir convenções gramaticais e ter um ritmo próprio, tenho certeza de que não é Hilda que é incompreensível. As pessoas é que, em geral, adoram não compreender. É bonito ter em casa alguma coisa que não se compreende. Eu já acho que cada um deve entender a sua verdade sobre a história. Mas, para mim, mais do que um entendimento, a obra dela mostra uma essência contraditória, que é o que me atrai. Não era mulher de meias palavras ou rodeios. Escrevia com paixão, beleza, violência, amor, loucura. E eu sei admirar isso em alguém.

domingo, maio 14, 2006

TOdo o amor do munDO (ou... das alegrias e desventuras da maternidade)


Acordei e resolvi ligar a TV. Propagandas do período do dia das mães. Românticas e belas. Dá vontade de sair comprando tudo. Qual milagre o marketing não faz? "Be heroes, just for one day" (David Bowie). E é a sina das mamães. E acho que apenas um dia é injusto. Não há dia do "homem-caucasiano-de-30 anos". E temos dias para um monte de coisas. Reparar injustiças?
E eu acho que dar às mães apenas um dia é injusto sim. Parei pra pensar no quão complicado é ser mãe. Profissão em período integral, sem férias, hora extra, direitos. Nove meses de expectativas, sono, enjôos, humor alterado. Fora as infindáveis buscas de móveis e roupinhas para o futuro rebento e, por fim, as intermináveis contas. Fralda suja, seis trocas de roupa por dia, choro de madrugada, peito trincando, etc e tal.
Segunda fase. Educar. Ensina a falar, banheiro, engatinhar, andar, mostrar o mundo. Teoricamente, o que pode e o que não pode. Dai o pimpolho cresce, passa a responder, achar que é gente, até que, um dia declara a sua independência e decreta o absurdo: mãe é um saco, pegajosa, puxa saco, inconveniente, fuça em tudo, fiscaliza, quer decidir rumos da nossa vida.
Além disso, hoje a mãe tem de dar conta do sustento da casa. Direitos iguais. Que justo, não? Sai voando do trabalho, com o peito cheio de leite, doendo e derramando,pra ver seu faminto. Fora as febres de madrugada, doença do filhote, dentinho nascendo, fazer e zelar da comidinha do bebê, além das obrigações de esposa e de dona do lar.
Entretanto, o fato é que eu poderia ficar dias tentando entender o que, como homem, nunca conseguirei em complitude: o valor e o preço da satisfação de ser mãe, coisa para a qual ninguém está, nem será preparado. Recebendo algo que não tem preço, amor que não há igual.“Renovadora e reveladora do mundo. A humanidade se renova no teu ventre, mãe”.(Cora Coralina)



Esse texto é dedicado a todas as mães. Duas em especial. À minha, Angélica, por bravamente me suportar todos esses anos. Com seu temperamento forte e sui generis, ela conseguiu fazer tudo o que eu descrevi acima com maestria. O que eu sou hoje, devo basicamente à ela. Eu a amo muito e agradeço. E se o Dia das Mães servir pra me fazer pensar sobre isso, então já achei uma utilidade. Segunda pessoa. A mais nova mãe que eu conheço: Camila Beja. Desejo a você e sua filhinha linda, Débora, toda a felicidade do mundo.


terça-feira, maio 09, 2006

Eis que ontem, à procura de um texto sobre "Performance Pós-moderna", dissecando uma pilha de papeis velhos, acho algo que me vem à atenção. Trata-se de um pequeno exercício de meu finado curso de inglês. Data de 1997:



Peace feels like heaven

Peace smells like green grass at night

Peace tastes like a sweet candy heart

Peace sounds like a waterfall far away

Peace looks like the color of your eyes



Agora eu considero que sei bem mais inglês do que sabia naquela época. E bem menos do que já soube a uns 2 ou 3 anos atrás. A certeza da perda pelo desuso. Mas eu ganhei sabedorias também. Disso eu tenho certeza. Então, acrescento:

All these things are true. Bet on it. If i have to write these lines again, I woudn't change anything at all. They make more sense now than when I wrote them. And I'm certanly sure of that.

domingo, maio 07, 2006

... (ou “O Dia em que a Terra Parou”)

Nada deve ser escrito. O que foi escrito não deve ser lido. O que foi lido não deve ser dito. Pois hoje é dia de um significante que não significa a si mesmo, porque seu significado transcende a tudo. Porque as palavras perdem sentido diante de momentos fecundos.

Todo pecado foi anistiado. E tudo o que um dia foi pôde voltar sem mácula alguma. Porque hoje os anjos se regozijam em festa no céu. Há recesso no purgatório e, no inferno, ponto facultativo. E todos os heróis foram pra casa, sentindo-se desnecessários.

Esse texto foi escrito porque este é o dia que regras não fazem a menor diferença. Porque os traços do real estão de folga e foram passear na praia. Porque não há evolução, não há avanço e não há progresso. A leveza do instante substituiu o grande plano.

Porque hoje o sonho veio e salvou o mundo com seu sorriso. E a grandeza do divino agora se desfalece diante da alma, da beleza e da inocência humanas. Diante de algo que os anjos nunca vão entender e os homens nunca vão conseguir explicar.

sexta-feira, maio 05, 2006

How to fly (or... if you wanna reach the sky, you'd better know how)

Quando acordou, viu que tinha sonhado. Era mais um sentimento do que uma impressão consciente. E tentou começar o dia se lembrando de tudo. Mas a memória foi traiçoeira. E a incerteza o fez esquecer a parte que faltava do quebra cabeças.

Resolveu que não queria apenas visitar o mundo por mais um dia. Decidiu que não queria apenas sentir o calor do sol. Queria ir até o Olimpo e roubar o fogo dos deuses, para compartilhar com quem lhe presenteasse com um sorriso sincero.

Mas Prometeu era um Titã, e mesmo assim falhara ao fim. Então, como fazê-lo, não sendo um super-homem? Como se banhar no infinito e manter-se seguro? Sonhos. Pensou que talvez, por hora, não precisasse deles. Pensou que talvez Prometeu tivesse apenas sido descuidado.

Chegaria ao sol portando asas e roubaria o fogo eterno. Mas não cometeria os mesmos erros de Ícaro: forjaria suas asas na alma, para que não derretessem à primeira dificuldade. Coragem, coragem. Medo de cair. Medo de cair de tão alto. Medo de sentir dor. Medo de se sentir fraco.

Não conseguia deixar de duvidar. Se realmente conseguiria alçar vôo carregando a culpa de todos em que já infligira sofrimento. Peso muito grande para levantar dessa forma. O medo de não sair do chão. Pensou em manter do sol a distância necessária para aquecer o coração sem queimar as asas.

Foi quando uma estrela pousou como sombra de sonho em seu ombro, vinda do céu. Ofereceu: “dou-te todo o meu brilho se disseres porque ris tanto se és tão triste assim”. Ele disse: “Ora, vamos dançar”. Enquanto dançava, pensava se era justo compartilhar a luz apenas com os sorrisos sinceros.

Pensou que apenas vemos sombras sem conhecermos a luz. Não tocamos a alma por julgarmos possuir todo o fogo que precisamos em nossas mãos. Sentiu o vazio da solidão soprando em seu ouvido. Dizendo-lhe para rir de tudo aquilo. Dizendo-lhe pra se encolher embaixo do lençol e se esconder do frio da noite.

De que adianta saber rir apenas das estrelas em luz desfalecidas? Rir da liberdade e do amor? De que adianta prolongar uma vida com a alma corroída? Preferia conviver com a dúvida a negar o belo. Respirou fundo. E achou que tudo era uma questão de não deixar o sol lhe queimar o olhar e ir em frente.

Percebeu por um momento gostar de ser a si mesmo. Gostava de se agarrar a esperança da inocência. Que gostava ainda de sonhar, muito embora não soubesse mais como. E concluiu que a empreitada valia a pena. Concluiu que se, ao final, ele sofresse eternamente o castigo divino, teria valido a pena mesmo assim.

quinta-feira, maio 04, 2006

FElicidaDE e DúvidA (ou... algumas certezas acerca do absurdo)


Considero Camus um dos sujeitos mais humanos que já existiram. Ao ponto de sua existência ser desadaptativa entre nós, meros humanos. Nunca conseguiu arrepender-se verdadeiramente de nada. Ele possuía a alegria do Sísifo unicamente pelo motivo de que seu destino lhe pertencia, porque tinha consciência da escolha de suas tarefas.

Acredito que só há um mundo. Mesmo que alguns não creiam nisso, e criem mundos só para si mesmos. Ainda assim, acho que vivemos todos aqui, e juntos. E, nesse mundo, a felicidade e o absurdo são filhos do mesmo pai. São inseparáveis. Nós vivemos no meio disso. E a dúvida me é bem vinda quando eu consigo entendê-la.

Mas seria errado dizer que a felicidade nasce da descoberta do absurdo. Acontece também de que do sentimento do absurdo nasça da felicidade. Ao mesmo tempo, não descobrimos o absurdo sem nos sentirmos tentados a escrever um manual qualquer sobre felicidade. Ando me sentindo tentado ultimamente.

quarta-feira, maio 03, 2006

PAsseIO (ou... de volta à Avenida Goiás)

Então. Hoje a minha falta de tempo se dispôs ao inesperado. Resolvi andar a avenida Goiás inteira antes de trabalhar. Assim como por várias vezes fiz durante meus 14 anos, sem ao menos titubear. Pensei em quantas léguas estou deixando de andar. Pensei em quantos livros eu deixo de ler. Quantas músicas eu deixo de escutar. E resolvi entrar no "sebo verde" (eu chamo os sebos pela cor da fachada). E me veio nostalgia. A coleção de Jorge Luis Borges que eu deixei de comprar pela falta de mesquinhos R$ 160. Eu devia ter pedido emprestado. Pergunto ao balconista: foi vendida há tempos.

De repente, um feixe de luz na minha empoeirada perspectiva existencial momentânea. Eis que me deparo com um livro de Daniel Quinn. Isso sim é algo difícil de achar dando sopa por ai. Puro aforismo em cento e poucas páginas. Desejo dele de ser mais "escancarado" em seus pensamentos. Muito justo. Eu devia ser mais escancarado em meus pensamentos também. E eu também disse que não compraria cds. Agora eu tenho acesso a mp3 de bandas islandesas. Achei que não precisasse mais disso. Mas estava lá. Novo cd do Coldplay. Metade do preço. E lembrei porque eu adoro os sebos.

Orgias gastronômicas à parte. Me senti um pouco mais leve, apesar do peso extra na minha mochila. Ao passar pela "loja do tio raizeiro", senti novamente um cheiro de vida. Ou de quentro, não sei bem. No cruzamento da avenida Goiás com a Paranaíba, parei e comecei a olhar os lados. Procurando "todos", "ninguém" e a "mim". Sinceramente, não sei quem estava mais presente nesse momento.

O resto do caminho foi bem normal. Porque, diante de lojas de instrumentos musicais, eu continuo o mesmo garoto de 14 anos. Bom. É foi muito bom. Tenho o que ler e escutar. Eis que chega a hora de trabalhar. Talvez seja a hora de guardar as camisas de flanela imaginárias no armário do pensamento outra vez.
Talvez não.

terça-feira, maio 02, 2006

O Sr. Quiroga hoje me disse que eu preciso mudar radicalmente meu ponto de vista, para acompanhar o ritmo louco com que a minha realidade anda se transformando. Eu realmente não sei como ele descobre essas coisas, mas ele diz que a alma ainda se apoia nos pontos de vista em momentos de insegurança. Diz ainda que, se eu dividir a realidade e encarar uma coisa de cada vez, tudo fica menos complicado. E talvez, frente ao novo, eu realmente não precise do antigo. Mas ele faz isso parecer fácil. Então, no fim das contas, eu acho que o que ele quer dizer é: eu deveria fechar meus olhos e respirar bem fundo.

Hoje é aniversário de uma boa amiga. Se eu conseguir salvar o "meu" mundo (leia-se: muito trabalho a ser feito) e dar um abraço nela, me dou por satisfeito.

segunda-feira, maio 01, 2006

SOrte de hoJE (ou... "Simplicidade de caráter é o resultado natural da reflexão profunda"[?])

Hoje eu acordei com umas vontades diferentes. De me sentir inseguro. De estar no direito de achar que eu posso mudar o mundo. De dizer às pessoas o quanto o mundo exige muito de mim, e dizer o quanto isso tem me cansado. Vontade de achar a vida muito boa, porque há motivos. Ouvir música o dia inteiro. De dançar. Sentir a água correndo meu corpo durante o banho. De parar na rua e olhar as pessoas, mesmo sem saber quem elas são. Vontade de aumentar o som do carro e dirigir na auto-estrada. De ficar em casa um dia inteirinho. De dar trelas sozinho e não olhar para os lados pra saber se tem alguem me olhando. Vontade de que meu bom humor seja sempre sincero. De cultivar sentimentos, e regá-los todos os dias com carinho. De chorar como criança quando ficar com medo. De ter tempo pra escrever todo santo dia, e sempre algo inspirado(r). De me contradizer a todo instante. De não gastar energia evitando que as coisas me atinjam. Vontade de rir ante à perfeição, porque sei que ela é mentirosa. E de cumprimentar a vida. De sempre saber o que fazer com o que eu sinto. E de não ter nada pra provar, nem à mim mesmo. Vontade de saber o que vai acontecer no amanhã.

SErá mesMO? (ou... como falar de sentimentos, cientificamente, pode ser muito sem graça)

A aprendizagem dos sentimentos não se difere da aprendizagem dos comportamentos públicos. A única diferença é que, nos comportamentos privados, apenas o próprio organismo pode dar conta de sua ocorrência. O que acontece é que o indivíduo aprende a falar de seus sentimentos é a partir do contato com sua comunidade verbal. Se ele aprende a falar “estou com dor”, podemos entender que a aprendizagem do que é esse evento privado está intimamente relacionado com o que o indivíduo aprende publicamente.

Então, muito do que uma pessoa conhece de si mesma depende das contingências às quais ela foi exposta durante a sua vida. O auto-conhecimento é dado pela comunidade à qual o indivíduo pertence, mas tem tembém um valor especial para o próprio indivíduo. Uma pessoa se tornou consciente por meio de perguntas que lhe foram feitas está em melhor posição de prever e controlar seu próprio comportamento encoberto. Assim, é a comunidade verbal do indivíduo que o ensina a nomear objetos, e tambem a se referir sobre o que percebe e sente.

domingo, abril 30, 2006

«Você sabe o que é o encanto?

Ouvir sim como resposta sem perguntar nada.»

(Albert Camus)

sexta-feira, abril 28, 2006

Sobre o absurdo (ou... “como ontem eu me reli de outra maneira”)

Sabe, a honestidade de Sartre me é atraente, apesar das suas conclusões sobre a ausência de um sentido para a vida e sobre a impossibilidade do amor, de que “a existência precede a essência”. Isso me preocupa. É muito difícil viver com a idéia de que nada me acompanha e nada me precede. E penso se poderia viver num mundo de heróis. Se eu poderia viver num mundo sem Deus.

Deus seria a escolha perfeita, mas uma pessoa perfeita é impossível. O corolário básico disso em Sartre é que, se Deus é impossível e é amor, então o amor é impossível. O que mais choca nele é a negação de que possa haver um amor genuíno e altruísta. Simplesmente não pode haver o “nós”. E o pior é que eu vejo isso todo o tempo. Eu vejo pessoas vivendo sem um mínimo de genuinidade e altruísmo, e me espanto me perguntando se Sartre estaria certo. O que implicaria que eu também sou assim. Que eu, assim, como todos, estamos sós.

Em Sartre, a essência ou natureza não viria de um Deus Criador: seria fruto exclusivo das suas próprias escolhas livres. Eis então me vem à esperança. Acho falacioso o argumento de que “o homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo”. Quem dera. Quem me dera poder controlar com primazia o que sinto. Quem me dera realmente pudesse fazer alguma coisa de mim, sem que isso dependesse de mais alguém. Isso me faria forte. Mas sou fraco, frágil e esperançoso.

Eu posso ser errante. Eu posso viver num mundo sem heróis. Ainda não tenho certeza se consigo viver em um mundo sem Deus. Mas posso conviver com o incerto, isso eu sei. Na verdade, eu aceito a dúvida, que é minha companheira nos momentos mais fecundos. Consigo aceitar as conseqüências de meus próprios atos, mesmo que não seja livre. Posso me perder. Posso viver triste e moribundo, se for o caso. O que eu não posso é aceitar viver num mundo sem amor. Eu preciso de algo que me salve de mim.

Esse texto é dedicado para o(s) leitor(es) assíduo(s). Os parenteses estão aí só para o caso de haver mais de um.
O que o progresso destruiu, é a humilde substituição do perto e do próximo em favor do “desconhece-te de ti próprio”. Penso em Kafka.

quinta-feira, abril 27, 2006

Sobre anões e gigantes (ou... você sabe onde procurar a tal felicidade?)

Certa vez eu vi ou ouvi algo de que nunca me esqueci: “O homem é um anão quando contempla o próprio umbigo e um gigante quando observa as estrelas”. Muito embora eu não saiba de onde isso veio, é provável que tenha sido distorcido pela minha cabeça. Cada vez mais sou levado a pensar que, muito embora a civilização deva muito mais às perguntas que aos dogmas, nossa sociedade valoriza muito mais a autoconfiança e a fé do que a dúvida racional. Porque?
A felicidade tem a ver com a capacidade de relativizar: a distância que somos capazes de colocar entre o que nos sucede e o que nos afeta. “Distância” é a palavra. Não se pode controlar o que nos sucede, mas podemos decidir o que nos afeta. Isso se consegue quando se sabe usar a inteligência da humildade para colocar os próprios valores acima das contingências (soou behaviorista sim. Mas eu sou, fazer o que?).
Outra coisa que eu li, e sei que guardei perfeitamente: “credo quia absurdum est”. O absurdo deu muito sentido a minha vida. Hoje sei que é preciso contar com o absurdo para encontrar algum sentido em tudo isso. Isso é senso comum mas: “em algum momento é preciso olhar nosso destino na cara”... por isso tento investir em valores que durem um pouco mais do que meu ego.

quarta-feira, abril 26, 2006

SUperomEM (ou... como andar com a cueca por cima da calça)

Eis que disserto sobre algo que andei pensando muito nos últimos dias. O bom de ser hiperativo é justamente que, por mais que você viva com um problema atrás do outro, mesmo assim vai encontrar tempo pra pensar em algo que não tem nada a ver com o seu futuro imediato. E vai gostar disso. Talvez seja uma conversa que me fez parar pra pensar. Bom, eis que penso então sobre armamentos, exércitos e o futuro da humanidade. E resolvi continuar acreditando que, mesmo que possamos destruir o mundo com fogos de artifício a qualquer momento, acho que a guerra não será o fim dos tempos. Acho que há formas muito mais dolorosas e lentas do mundo acabar.

Penso então em Nietzsche. Era esse o significado dos tempos vindouros? Devia-se aceitar na totalidade um mundo onde uma nova ordem deveria fatalmente imperar, na qual as novas regras, acima do bem e do mal, seriam impostas por essa figura exponencial que era o super-homem. Eu acho que estamos acima de qualquer bem e qualquer mal que já tenhamos concebido. Mas travestimos isso muito bem. Nietzsche tinha a firme convicção de que a sociedade européia em que vivia estava atacada por profundos males.

A globalização me faz pensar a mesma coisa do mundo inteiro. Então, ou evoluímos, ou acabamos por tédio, “causa mortis”: mesmice. A teoria do surgimento futuro de um novo indivíduo que juntasse o abandono de valores morais foi decorrente do culto ao gênio dos primeiros românticos. Uma esperança de que algum de nós algum dia estaria livre das mazelas que nós mesmos criamos. E os românticos, em grande maioria, morreram muito cedo. Então, eis que recorro a “Humano, demasiado humano”: "Se o homem consegue adquirir a convicção filosófica da necessidade absoluta de todas as ações e, ao mesmo tempo, da total irresponsabilidade destas, se consegue converter essa convicção em carne e em sangue, então desaparecerá também este resto de remorso de consciência".

A expectativa de Nietzsche, para evitar a bancarrota da grande cultura ocidental, era aguardar a chegada do super-homem, do indivíduo dotado de virtudes incomuns, mas também da secularização da mitologia já assinalado por Goethe. Eu não acho que precisamos esperar ninguém chegar. Fausto, em suas ultimas ações, quis superar o humano, subjugar a natureza e seus semelhantes. Virou um “superhumanizado”, do verbo usar-cueca-por-cima-das-calças. Bom, eu acho que já estamos aqui. Todos usando cuecas por cima das calças, tentando superar o humano, subjugando a natureza e nossos semelhantes. Usando os outros seres humanos apenas como degrau para sua ascensão. Provavelmente, algum dia vindouro, algum convencido de sua onipotência vai vestir a sua cueca, apertar um botão, e voamos todos pelos ares. E pelo menos não teremos de esperar pela decadência.

terça-feira, abril 25, 2006

ASsédiOS do QUotidiaNO (...ou “eu já não sei mais o que pensar desta vida”)

A palavra “cobiça” não me causa espanto na boca ou nas mãos de ninguém. Vivemos nada mais do que a fantasia desenfreada do que somos. Estimulados continuamente a imaginar e a viver em um conto de fadas moderno. Voyers da existência, fleumas do instinto.

O empobrecimento das relações aumenta a carência, o egoísmo, e a comercialização da afetividade. Amor que vale tanto quanto chocolate. Tanto quanto a espera do inesperado. Tanto quanto, sobretudo nada.

Um crescente empobrecimento afetivo. Por medo de envolvimento, mobilizados pela necessidade de encontrar satisfação na vida frente à ausência de sentido da existência. O medo de envolvimento é o mais gritante de todos.

Pessoas virando objetos com tranqüilidade, buscando sonhos longínquos que se adaptem a um imaginário tortuoso de desejos ilimitados. É como se o tempo todo falássemos que nada serve. Ou melhor. Serve tudo aquilo que é perfeito, justamente porque não se pode tocar.

«Os tristes têm duas razões para o ser: ou ignoram ou esperam» (Camus)

Eu consigo viver esperando. O que eu não posso entender é como alguem pode viver em função de uma espera.

segunda-feira, abril 24, 2006

Ode à Inercia (ou... como ligar o "foda-se")

"Quando não se sabe o que fazer, o melhor é não fazer nada". Essa frase foi dita pelo célebre Dom João VI, Imperador do Brasil no sec XVIII, em algum momento de epiphania. Eu não gosto dele. Sua postura ante a vida foi bastante medíocre, e acredito que sua vinda para o Brasil foi tão covarde quanto prejudicial à história do país. Contudo ele sabia bem a hora de uma retirada estratégica. Lá isso ele sabia.


"Mas o que me chama atenção é a relevância dessa frase. Parece justificar a indecisão, conceder inércia àquilo que já não queria se mover. A indecisão parece ser motivo para deixar de fazer as coisas, mesmo que não se entenda o porque disso. A inércia para, deixa as coisas mais tristes, sem ânimo. E nos acostumamos. Tornamo-nos "inertes".


"Entretanto, há algo de interessante nessa capacidade de permanecer inerte. Costuma evitar o estresse. Luis Fernando Veríssimo certa vez disse que o nível de estresse de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se" que ela costuma dizer. Quantas pessoas você não conhece que não se lembra de terem mudado nada em anos, e não parecem nem um pouco preocupadas com isso? Elas simplesmente podem ter ligado a "chave foda-se" e resolvido serem deixadas em paz.


"Tudo bem. Só que há uma diferença marcante entre essas duas posturas. A de permanecer inerte e a do "foda-se". Enquanto um sofre querendo mudar, o outro olha o tempo passar com satisfação. Enquanto um cultiva ansiedade por dentro, querendo a todo custo homologar seu modo "inerte" de vida, o outro em sequer se preocupa se alguem está pensando algo dele, a menos que algo lhe seja dito. E memso assim, dizer algo para um "foda-se", a menos que seja muito importante, não o faria mudar. Nem esquentar a cabeça. Normalmente, um inerte sempre tenta emular, imitar, ao menos agir como um "foda-se".


Eu aposto que Dom Jõao VI era bem cuca fresca. Mas, mesmo assim, não tente sair por aí classificando e catalogando. Nada disso é ciênica exata. Mas uma coisa é certa: eles sabem o que os incomodam, e cada um sabe de si. Não há como sabermos quem é quem. Provavelmente, só eles mesmos, quando vão dormir, tem a medida exata de sua posição. No caso do "foda-se", talvez nem isso.

O sr. Quiroga hoje me disse que o futuro é agora. Que eu vou ser cobrado pelo que disse que ia fazer. Que o momento atual é diferente do passado recente. Tomara.

segunda-feira, abril 17, 2006

2046 (... ou "Como a melhor explicação para a vida nunca vem da sua própria boca")

I once fell in Love with someone
I couldn’t stop wondering
whether she loved me or not
I found an android which
Looked just Like her
I thought it might give me the answer
I kept on asking with no answer
I began dreaming up excuses
for her silence
I slowly began to doubt myself
The reason she didn't answer...
...was not simply that her
reactions were delayed
It's simply that she didn't Love me
So at Last I got it
It's entirely beyond my control
The only thing Left for me...
...was to give up.

sábado, abril 15, 2006

Alligators in New York (Thom Yorke)..............................................................................................


Há uma pequena criança
Correndo em volta da casa
E ela nunca parte
Ela nunca partirá
E a névoa surge dos esgotos
E brilha na escuridão.................

Mime os jacarés nos esgotos
"Cresça rapidamente"
Qualquer coisa que você quer que pode ser feita
Como ficou ruim?
Você foi ruim?
Algumas coisas nunca serão limpas

PRoduzinDO um Ep (... ou "Uma boa desculpa pra se divertir com bons amigos)

HOje eu terminei a produção do Ep da BAnda Lascívia. Chama-se "mecanismo invisível". Tem as guitarras ora cruas, ora espaciais, do Thalão (esse nome eh soh pra intimos), a voz particular e as letras reflexivas do Wendell (eh, sou fâ dele mesmo, e dai?), os baixos matadores do Rubim, e o Max destruindo... mas assim destruindo mesmo, com muuuuita vontade. °°° Gravamos no tio PAFA. Longas noites, regadas a Coca-Cola, sandubas e fumadas passivas. Muito bom... c eu pudesse, gravava toda semana. °°° E o que eu fiz... muita coisa na verdade... o trabalho de produtor é meio ingrato, porque se ficar uma porcaria, você não tem a quem culpar. Mas eu gravei teclados, e ainda entrei pra banda. Muito bom mesmo. Porque não ficou nada ruim... e eu me orgulho... e quem ouvir vai gostar

°°° Mecanismo Invisível (Wendell Sad) °°°

Tão longo foi o tempo que passei °
Tentando achar exlicação °
Sem ter alguma inormação °
Eu vi °
Que era inutil explicar °
Tão pouco eu ia te encontrar °
Passei a ver °
Que tudo faz parte de uma mecanismo invisível °
Mas sei que isso não vai ser facil assim... °
Ainda falta aquela parte °
Ainda falta a melhor parte °
Ainda falta... °°°

sexta-feira, abril 14, 2006

CHocolatES (... ou sobre o medo de ser feliz)

Jornal Anhanguera. 12h15. BLoco sobre páscoa. Duas reportagens...
missa da paixão de cristo, o auge do ritual em que sacrificamos
Nosso Senhor por nós. Outra reportagem: Procissão do Fogaréu.
Celebramos a perseguição também. Terceira Reportagem: Ovos de páscoa.
A catarse absoluta. Nos escondemos do que estamos festejando atrás de
doses cavalares de fenil-etil-amina. Porque o medo? Medo de cada dia,
do pecado, do fogo eterno, da vida. Medo reforçado pelo cristianismo,
que nos estrutura, dá sentido à nossa existência, nos dá garra para
trabalhar e enfrentar os problemas.°°° Medo de solidão. "Só não temos
medo do mais assustador: nós mesmos".

Eu não como chocolates há 4 semanas.

Deram-me, não comi. Não quero saber.

Prometi que não beberia nem tomaria sorvetes.

Não cumpri. Quebrei 40 minutos depois.

E resolvi que não comeria a pereba dos chocolates.

Por ser um bom cristão? Provavelmente não.

Não sei. Talvez o mesmo medo.

Mas que eu acho uma palhaçada

roubarmos a atenção do dono da festa,

por medo pueril, isso eu acho.

.

o porque de não fazer as coisas?

eu estou simplesmente morrendo de vontade de comentar uma música aqui. mas não vou fazê-lo. ou vou, mas não agora. na verdade, eu vou ficar devendo isso e mais 2 coisas: o ensaio sobre músicas tristes, e.. e... o que mesmo... ah... 2046... qdo eu conseguir sair de lá, faço tudo isso. prometo.

quinta-feira, abril 13, 2006

Adivinha o que eu vou fazer hoje?


"I've been mad for fucking years, absolutely years, been over the edge for yonks, been working me buns off for bands..." °°°

"I've always been mad, I know I've been mad, like the
most of us...very hard to explain why you're mad, even if you're not mad...

°°°°°" (Speak to me - Mason)




Esse é o melhor álbum já feito. Pronto, falei. Mas é mesmo. Não porque sejam as melhores músicas, não porque seja a melhor banda do mundo (embora eu não discorde). Falo pelo respeito que tenho com pessoas que conseguem criar uma obra de arte tão perfeita. E o melhor... que sincroniza com uma das melhores narrativas já criadas. Como ver essa obra prima de audio e video em complitude, clique aqui. ----------------------------------------------------- --------No mais o que eu posso dizer é o seguinte... eu adoro isso. °° / ° ° /°//////° / / / / ° °°


Sobre coelhinhos e outros pecados capitais

então... liguei pro sr coelhinho da pascoa... °°°°
perguntei se ele não tinah vergonha de tirar a atenção do dono da festa... °°°° /
and the white rabbit said: i don't care... (ele não fala português) ° ° ° / / °/
então eu disse: me neither... ° / / / / /° °
fiquei me sentindo culpado... °//°°°

°° ° liguei de volta e disse... se aparecer aqui em casa esse fim se semana eu parto sua cara, seu coelho f*** * ** ***** ** ***********!!!!!!!

ele não entendeu... eu jah disse... ele não fala português...
e eis que me sacaneia, óh Sr. QUiroga...

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"Sempre se aproxima, raramente acontece, esse é o jogo da felicidade. Talvez seja importante começar a aceitar que a felicidade seja uma eterna aproximação, e não um lugar ou relacionamento ao qual se chega, para depois descansar".

viram, o cara cria 2 dias de clima, e depois joga pra baixo... ° ° °
vou mandar ele conversar com o cara que faz a sorte do orkut... ° ° °
pra ver c eles se entendem... e me deprimem todos no mesmo dia... ° ° °
hahaha!!! "meu figuim num guenta naum!" (Maraisa, 2005)
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pior de tudo: eu concordo com ele. tou ficando fâ do cara...
masoquismo? não. acho justo...

quarta-feira, abril 12, 2006

CAchorrOS PErdidOS (ou... Que me desculpem os Ressentidos)

Em um texto chamado "Luto e Melancolia", Freud (o cara da psicanálise, sonhos,
inconsciente, etc e tal...) explica que, em reação a perda de algo ou alguém,
uma pessoa pode desenvolver dois tipos distintos de reação: o luto ou melancolia
(parece obvio, né?). Em ambas, o princípio da dor pela perda é comum, pois tanto
um quanto o outro são tentativas de desvio de libido do objeto amado (e perdido,
isso é importante). No entanto a diferença é que o luto tem claramente definido
o objeto de sua perda. Enquanto isso, láaahhh... na melancolia, o objeto da
perda permanece retirado da consciência. Ou ainda, não se pode saber o que de si
se perdeu neste alguém. [Em miúdos: a pessoa sofre pela perda mas não sabe o que
perdeu. Simples assim.] O objeto simplesmente não corresponde à representação
que a pessoa fazia dele, então ela permanece ligada... e não sabe dizer o que é
que a mantem nesse estado. Deste modo, ao contrário do luto que pode, ao fim do
processo, separar-se do objeto da perda, a melancolia permanece atrelada à perda
uma vez que o objeto da perda e seu próprio ego estão fundidos no mesmo
processo, não permitindo que o desvio de libido se complete, pois uma vez
concluído, significaria a morte do próprio ego.


mais uma da Billie Holliday... (vide Conforting Sounds ) a voz dela me deixa: excitado, apaixonado, com medo, confuso, tranqüilo, em pânico, calmo, triste e alegre. Ao mesmo tempo. ... . . . .. . . .. . . . .. . . . .. . . . .. . . . .. . . . . . ..

[SOLITUDE] (Duke ellington / eddie delange / irving mills) º In my solitude
º You haunt me º With dreadful ease º Of days gone by º In my solitude º You
taunt me º With memories º That never dieI sit in my chair º And filled with
despair º There’s no one could be so sad º With gloom everywhere º I sit and I
stare º I know that I’ll soon go mad º In my solitude º I’m afraid º Dear lord
above º Send back my love º

Primeira tópica de verdades indubitáveis...

Essa é a primeira de (espero) uma série de tópicas sobre verdades indubitáveis... para mim, ao menos... falemos dessas certezas.... . . . . . . . . . . . . . .. .. . . .. .
. . . . .. . . . . .. . . .. . . . .. . . . .. . . . . . . . .. . . . .. . . .

Já tive as minhas certezas...
não necessariamente excludentes e nessa ordem
º
me achar especial º
achar que as pessoas não me entendem º
Certeza
do nada, da inexistência completa de sentido... º
Hoje, tenho certeza de que
tudo o que já fiz está ou, ao menos, esteve errado º E mais uma certeza: Vai continuar assim. º
Sabe o que doi? A certeza da evolução00O0O ...
Saber que me tornei um velho chato. Assim mesmo... eu não ligo ]] Porque deveria? ]] Hein? º Porque?
HOróscoPO - continuação...

essa foi minha "conversa" com o sr. Oscar Quiroga hoje, 12:
. . . . . . . .. . . . . .. . . . . . . .. . . . . . . . .. . . . . . . . . ........................................................ . . . . . .. . . .

"Nada mudaria se tudo corresse às mil maravilhas, não acha? (eu não sei) . º . Porque a alma humana se entrega rapidamente à preguiça (eh, disso eu sei muito bem) é que as crises ainda são motivadoras para que as tranformações sejam devidamente empreendidas". . . . . . . . .. . . . . .. . . . . . . .. . . . . . . . .. . . . . . . . . ........................................................ . . . . . .. . . . . . .. . . . . .

Bom, o sr. Quiroga, estás certo de que, a julgar pelos seus ultimos avisos, é justamente quando estamos pior que ficamos melhor. Eu não entendo nada disso. Eu nunca li hopóscopo. Eu não acredito neles. Eu só posso torcer pra que o senhor saiba realmente o que está dizendo.

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"Give up this fight, there are no second chances .º. This time I might .º. To ask the sea for answers".º. (placebo, ask for answers)


terça-feira, abril 11, 2006

HOróscoPO


o DM é um jornal honesto. Explico: eles pegam horoscopo de um site, não pagam
nenhum estudante de letras pra inventar as coisas... eles tem inventores
especializados, a saber, um tal Oscar Quiroga. e qualquer dúvida em relação ao
conteúdo, qualquer reclamação, pode ser feita pelo email astro@o-quiroga.com . .. . . .. . .. . .
.. . . .


então, meu horoscopo, de bom canceriano diz hoje: . . . .. . .. . . .. . .. . . .. . .. . .

"Nada seria mudado se tudo corresse as mil maravilhas. È quando acontecem crises
e o mundo desaba que a alma encontra motivos foirtes o suficientes para se
esforçarm e inventar um mundo novo, maior e melhor"...


a minha pergunta pro dr. quiroga é: devo eu acreditar no senhor... sim, porque se ele estiver errado, então eu estou perdido... . . ... . . .. . . . . .. . . pronto, botei uma culpa que eh minha (sera?) no sujeito, e vou dormir tranquilo. Ele também.
Baby, Baby, Baby, I just don't know what to doI fell in love again, but why, oh, why am I so blue .

And darling, darling, it's all because of you .

You put a hold on my heart and soul, leaving me so confused .

But I need to know, I need to know .

how long you plan on dragging me through .

So much pain and so much hurt .

It's so hard to stand on two feet .

segunda-feira, abril 10, 2006


. Segure-se firme . Ainda vamos provar . Que isso vai passar .
Que isso já passou . Segure-se . Está na hora de provar .

Mal Algum

Que mal há em fingir .
que não fizemos o bastante? .
que todas aquelas palavras .
soavam melhores quando não tinham destino .
mas tudo que eu disser sairá como flecha .

Que mal há em negar .
que não perdemos o controle? .
as cicatrizes no seu comrpo podem se indícios .
de algo bom que existe em você .

mas toda essa dor .
será passageira? .

apenas cante pra mim .
e não me deixe tão só .
eu costumava me alegrar .
só de ouvir a sua voz .
eu costumava me alegrar .

domingo, abril 09, 2006

> eu sei que isso aqui vai mudar
> e que logo eu vou fazer tudo de novo
> e que provavelmente ainda não vai me satisfazer
> e que eu vou tentar de novo...


>>> será que algum dia eu vou etender como funciona essa trela de html?

sexta-feira, abril 07, 2006

SOBRETUDO NADA

És tudo
quando mudo.
És nada
quando fala.

Estudo deságua
peixe-espada
no verso da paginalada.

Desnudo
o veludo da língua
no sotaque áspero
de quem apara arestas.

Afasto tudo
que é nefasto.

Sô o silêncio me basta
no sorriso que empresto
ao alarme falsoda sinfonia do gesto.

Romance

eu nunca disse
nem quis fazer nada
e permaneceria longe
sempre soube que me deixaria cair

nesse abismo de sinceridade
nas manchas no tapete
na alegria cantada
e nos slides da memória

na prosa suave
que eu grito todo tempo
na felicidade murmurada
de que eu sempre me esqueço

Jesus was an only son for you?

Recebi autorização, isso vai uma música, logo logo...

Lugar nenhum qualquer

Gilson Cavalcante – 24.08.05)
AUM, AUM
HÁ UM LUGAR
NENHUM TÃO LONGE
ONDE MORA O MONGE
DEMORA O TEMPO
NA-MORADA
ETERNA-MENTE
ESPAÇO-NAVE
NEVER, NADA
INFINITAMENTE
AUM, AUM
HÁ UM LUGAR QUALQUER
POR PERTO
HÁ UM SILÊNCIO
NO DESERTO DE CADA UM
AUM, AUM, AUM
AUM, AUM, AUM...

obrigado, Gilson.

here´s to you

durante 20 anos eu tenho comido seu lixo
e escutado suas histórias
agora você vai aprender a me respeitar