quarta-feira, junho 15, 2005

De Bons e Maus Selvagens

“C’est la faute à Voltaire. C’est la faute á Rousseau”

Les Miserables, Victor Hugo

“Ama a teu próximo como a ti mesmo”. Esse mandamento canônico da religião católica é usado por Freud para discutir um ponto muito interessante da Teoria Psicanalítica. Ao nos deparamos com a grande dificuldade que há em amar todos os “próximos” de forma tão intensa como amamos a nós mesmos, vemos que também existe uma impossibilidade de fazê-lo, apontada por Freud em O Mal Estar na Civilização.

Tal mandamento implica também que cada ser humano deva amar inclusive os próprios inimigos. Outra possibilidade das mais improváveis, que só poderia ser entendida e conseguida pela crença absoluta, pela fé tomando o lugar da razão. Poderíamos pensar então na guerra e demais conflitos como resultados dessa incapacidade de amarmos uns aos outros, já que amar ao próximo como a si próprio seria uma forma de garantir a não agressão deste.

Entretanto, amar implica necessariamente em uma identificação com o objeto de amor, de forma tal que não pode ser alcançada em relação a todas as pessoas. Por isso mesmo, enganam-se os que desejam que a paz possa ser conseguida eliminando todas as manifestações de agressividade. Isso não seria possível. O fato é que, até a manutenção da paz não pode prescindir do uso da violência.

Portanto, equivocam-se igualmente os que imaginaram estar na propriedade privada o motivo pelo qual os homens travam guerras. Pensaríamos então que a agressividade é provocada pelo sistema capitalista em que estamos inseridos. Mas não é a agressividade anterior a esse modo de produção? O Capitalismo não cria a agressividade, apenas usufrui dela. Tão pouco é a propriedade a responsável péla sua existência. Devemos entender, pois, a agressividade como algo inerente ao ser humano, presente neste antes mesmo que a idéia de posse seja adquirida.

Vemos então que Freud não considerava o homem segundo uma proposta Rousseauniana. Ou seja, o homem não é um bom selvagem, bom em essência, e que apenas reage às agressões vindas do meio em que vive. Ele não é considerado gentil, tão pouco altruísta. É sim guiado por dois tipos básicos de pulsões: de vida e de morte. A existência deste último tipo de instinto confere ao homem agressividade e, quando dirigida a objetos, capacidade de destruição, inclusive da vida alheia. Assim o “selvagem” é para Freud o que seria aquele que é um “mal selvagem” para Rousseau. A agressão inerente à natureza humana faz com que quanto mais primitivos nos comportemos, mais violentos nos tornamos.

Mas o que fazer então para garantir a sobrevivência da espécie, se não pode eliminar a agressividade, se não há como evitar que destruamos a nós mesmos em algum momento? Talvez o grande trunfo da civilização seja o de promover a convivência, não pacífica, mas relativamente harmônica entre os homens. Isso é conseguido impondo aos mesmos limites para as manifestações dos instintos agressivos, da mesma forma que acontece também com as restrições ao uso da energia libidinosa.

Com tantos sacrifícios, é realmente difícil sentir-se bem em civilização. Afinal, como sentir-se bem quando as pulsões sexuais são em parte sublimadas, em parte reprimidas, e as agressivas são recalcadas, e o Superego as dirige contra o próprio indivíduo, sob a forma de culpa? E mais, com cada sacrifício de pulsão agressiva, esse sentimento aumenta.

É possível então que o objetivo da civilização seja o progresso em direção a uma comunidade mundial, que ao menos proteja as pessoas contra a violência bruta. O que aglomera pessoas em nações muito provavelmente é eliminar os ressentimentos, e criar identificação entre oprimidos e opressores, para que esses possam conviver. Isso, no entanto, só surge devido a relações de alteridade em relações a outras culturas.

Se o homem aceita essas restrições em prol do convívio social, então podemos concluir que há um ganho muito grande nisso, ou haja uma forma de garantir que essa energia destrutiva seja liberada de alguma outra forma. Podemos ainda observar que, dentro dos grupos, que unem as pessoas baseados num sentimento amoroso, é muito fácil observar sentimentos hostis em relação a outros grupos.

Por Alysson Assunção

segunda-feira, junho 13, 2005

Tenha um bom FICA

  • Converse com os nativos, que dão dicas sobre santuários escondidos.
  • Faça oficinas.
  • Assista á mostras competitivas.
  • Assista mostras paralelas
  • Algumas palestras são boas (sim, isso é possível)
  • Tome sorvete de creme de ovos no Coreto, na praça do Chafariz.
  • Acorde cedo e tome café da manhã no Mercado
  • Ande muito. A arquitetura da cidade é belíssima.
  • Veja o pôr-do-sol do alto da igreja Santa Bárbara ou em frente à estrada de chão do Cruzeiro.
  • Almoce ou jante no Restaurante Brasil, no Mercado Central O melhor da cidade. Por R$ 5,00, tudo o que agüentar comer da boa e velha comida caseira, que parece a da mamãe.
  • Use Moto Táxi para se locomover na cidade. O serviço é ótimo, a corrida em custa cerca de R$ 2,00.
  • Visite o Hotel Vilas Boas, mas tudo lá é só pra ver, porque é muito caro.
  • Divirta-se no Bar e Restaurante Morro do Macaco Molhado com o famoso forró aos moldes de antigamente: som de vitrola.
Por Alysson Bruno

sábado, junho 11, 2005

Capital

Me diz quando e onde ir

Se eu não me encontro em nenhuma rua

E ninguém fica o dia a sorrir

Você anda tão rápido

Eu te sigo torto

Nem dá tempo de dizer

Que mesmo morto eu te queria em mim

E você sempre dorme em paz

Você sempre dorme em paz

Você sempre dorme em...

Eu fico aqui contando pedaços

Que te cobram em todo lugar

Onde você não se percebe

Não acorda e ainda vem negar

Mas fica sempre bela a mim

E a todos que podem pagar

Que vêem sua virtude de perto

E você sempre dorme em paz

Você sempre dorme em...

Você sempre dorme em paz

E você sempre dorme em paz

Você sempre dorme em...

Você sempre dorme em paz

Alysson Bruno

sexta-feira, junho 10, 2005

Até o último cliente

Um beco escuro na Cidade de Goiás. É madrugada. Um turista desavisado pode passar pela rua que leva ao Mosteiro da Anunciação, sem se dar conta de uma pequena passagem localizada no quarteirão em frente à Praça Araguari. A luz da lua minguante cria na estreita viela um caminho sombrio que leva a uma das atrações mais pitorescas da Cidade de Goiás: O Morro do Macaco Molhado.

Ao caminharmos entre as casas que formam o escuro corredor que leva ao bar localizado no centro do quarteirão, fica é fácil descobrir porque o bar leva o mesmo nome de uma favela do Rio de Janeiro. Os visitantes da Cidade de Goiás que comparecem ao FICA (Festival de Cinema Ambiental da Cidade de Goiás), realizado este ano de 31 de maio a cinco de junho, dificilmente voltam pra casa desconhecendo a fama do local.

Quem vai pela primeira vez se pergunta qual o segredo do sucesso do Morro. O bar é pequeno, não tem mesas e cadeiras suficientes, e não se vê nenhum garçom circulando entre os fregueses. Não há seguranças em parte alguma do bar. Também não há cardápio. Embora a indicação na divulgação do VII FICA faça referência à venda de batatas fritas e caldos, o produto mais procurado é certamente a “cerveja super gelada”. A música sai de uma velha vitrola, com um “disc man” adaptado. Alguns CD’s tocam do início ao fim e são repetidos por toda a madrugada.

Mesmo assim, durante todo o FICA, o bar recebe uma quantidade enorme de pessoas, que chega a exceder a capacidade de atendimento. As noites são animadas e regadas com cerveja e muito forró. O ambiente é sempre animado, e a pista de dança fica abarrotada de pessoas.

O Morro não deixa seus clientes na mão quando o assunto é o termino das atividades. “Estamos abertos das seis horas da tarde até o último cliente”, diz Senhor Walter Carneiro, o “Seu Ninho”, como é conhecido o dono do bar.

Mesmo sem eventos como o FICA na cidade de Goiás, o Morro tem garantido a fidelidade por parte dos fregueses. Andréia Alves, estudante do curso de Direito e moradora da cidade diz que o bar sempre está lotado aos finais de semana. “O Morro tem um público de fiéis estudantes e boêmios, que sempre comparecem” ressalta.

O fotógrafo Nelson Santos, que vem todos os anos ao fica, diz que o Morro do Macaco Molhado “é uma oportunidade para as pessoas de fora (de Goiás) fazerem coisas que não estão acostumadas, como dançar forró, beber, e conhecer pessoas novas. Aqui é um ambiente em que me permito vir sem minha câmera e sem a patroa”. O músico Marcelo Sorá diz que o Morro é um lugar que se tornou símbolo da cultura de resistência na cidade de Goiás, “pela persistência em atender de um jeito simples e sem perder as suas origens”.

Por Alysson Bruno

quinta-feira, junho 09, 2005

Há pouco tempo pra ser louco
Com todos aqui olhando
Eu não preciso da cura
Já que você sempre vem e me segura

Não importa se diferente você é
está no outro como todo o mundo
esta em todos como ninguem quer


Um modo estranho para despertar

E achar tudo em seu lugar
o mundo com ou sem sua fé
Você só deve ter pra crer

Que não importa quâo duro você tenta

Acha um nada como você

Você achará que gasta bastante sua vida

Você achará que tem algo a dar
E quando você vai dormir à noite
você nota que não sente o estranho peso
das todas as coisas que te fazem feliz

Alysson Bruno
  

Crônica de Papel Marchê

O que move o ar do dia tão lento

Estas pessoas não têm nenhum sentimento

Eles acham que te ensinam sobre amor

Eles acham que te ensinam a suportar a dor
Mas eu voei com asas de papel
E em de algo igual ao mel dos teus lábios


Para eu voltar até onde eu parei
Pra decorar o quarto que eu nunca enfeitei
Pra evocar à noite quando estiver tentando dormir


Há cartões postais para enviar
De lugares eu nunca vi
O sol está em meus olhos

O ar quente espera desmoronar
Às vezes, eu chego perdido em aqui
E demora um tempo para me achar

Para eu voltar até onde eu parei
Pra decorar as frases que eu desperdicei
Pra trazer a noite quando estiver tentando dormir

Alysson Bruno