quinta-feira, julho 27, 2006

Respirando ofegante. Protegendo meus pés do chão, experimentando o sonho a cada amanhecer. Ouvindo minhas palavras, exatas, não planejadas, saindo gagas e hesitantes como se não servissem para outra coisa a não ser estar ali. Cada uma delas colaborando com a certeza de que sempre estive errado, não pelo engano, mas pela inconsciência de que estive certo. Sentindo o silêncio suave do vento morno que entra pela janela afaga a cortina. Não medindo sentimentos pela minha alegria, mas pela alegria de quem eu compartilho. Não sendo desinteressadamente independente. Não querendo estar sozinho, nem ao morrer. Evitando o um desenrolar óbvio de acontecimentos. Querendo sentir tudo o que não está escrito. Sabendo de estar experimentando algo único. Surpreendendo-me com o simples. Sentindo que há coisas que não se adivinham, mas se escrevem todos os dias.

sexta-feira, julho 14, 2006

Dois patinhos e uma lagoa

Eu não costumo ter contato visual com boa parte das coisas que me são essenciais na vida. O ar que respiro, circunda e oxigena, e é invisível. A água que eu bebo, não tem cor, não tem sabor, não tem cheiro. O tempo que tanto prezo, que o máximo que posso é vê-lo passar e, na maioria das vezes, não há tempo pra isso. A música que eu faço e ouço só tem cor e sabor depois que entra em meus ouvidos. E por algumas vezes e vezes a vida me pareceu desbotada e eu me prestei daltônico diante dela.

E correr muito me fez bem e muito me fez mal. E procurar me fez achar tudo de bom e muito do ruim também. Mas nada impede de guardar as lembranças de minhas desventuras em álbuns de recordações, e de levar a minha sorte comigo na sacola, pra onde for. E de me sentir feliz por estar vivo, me sentir assim até quando triste. Por ter sangue correndo nas veias, o invisível ar nos pulmões, e o invisível-indizível que aquece no coração. Ah, sim, esse invisível agora tem nome, tem cor e tem cheiro.

Nesses 22 anos, eu me reservo o direito de mudar quantas vezes foram necessárias pra continuar sendo quem sou. De sonhar acordado. De gritar na tempestade, e me paralisar com a relva da manhã. De nunca me arrepender de ter feito alguma coisa sem me arrepender de não ter feito algo antes. Guardo-me a proeza de ser único, sem ser melhor que ninguém. Reservo meus motivos. Reservo a mim também o direito a cultivar um sentimento sem nome. E de rir de mim mesmo ao pensar na minha vida.

segunda-feira, julho 10, 2006

ººº
Costumava achar que quanto mais o tempo passasse, mais entenderia das coisas. O tempo foi passando e fui entendendo cada vez menos. Sem ter o que entender, entendia nada e entendia o nada. Desentendia. Daí se vê que não entendia quando achava que entendia e, hoje, que não entendo nada, entendo um pouco mais. Entendo que muita coisa a gente não vai entender, embora não seja motivo pra parar de questionar. Outras coisas não tem explicação, e está muito bem assim, obrigado.

sexta-feira, julho 07, 2006

Testomontaggi Spontanea


Mexe os ombros para as dificuldades. Com o rosto bem iluminado, não da luz que entra, mas que lá reside. O sol apenas acompanha suas vestes. Eu o garoto que sente e quer ter braços maiores para a segurar com mais força. Cada momento é único e não dependem uns dos outros pra serem felizes. O impensável levemente substituído pelo passeio da borboleta. E a atenção está nela. Não no que foge do cotidiano e não imaginam que a realidade também é magia. Momentos riem do insólito inventado. Só dão o ar da graça a quem dispensa interpretações. E com o tempo, mesmo que sem explicação, o surreal se torna cotidiano, simples e essencial. E o impressionista, perdido em borrões, não entende o sonho e vive míope ao simples.

Nota: esse texto foi editado, sendo apenas parte do original.

quarta-feira, julho 05, 2006

O Porão

ººº




Vivia nos bastidores da alma. Gostava de sonhar aquele sonho só.

Interpretava A vida se tornado sem graça que se contentava em navegar na superfície dos outros.

Sentia falta do palco. A consciência perdida meio a cordas, roldanas Alçapões que levavam onde estava.

Por vezes, escrevia linhas herméticas. Roteiros-rodeios que não eram peças Não levavam a lugar algum e ninguém aplaudia.

Escondia detalhes para tomá-los seus Talvez por isso tivesse se mudado Tornado tudo tão baixo.

Mas nunca havia se incomodado em decorar o lugar com flores O que explicava porque ninguém mais permanecia ali mais por muito tempo.

Gostava era de decorar as rachaduras na parede E, ao lambê-las, aumentavam Ruía a estrutura Estava desintegrando, mas simplesmente não queria partir.

Não entendia Preferia ficar remoendo Ocupando-se do inevitável Quando a lucidez desse falta era tarde demais para pedir que voltasse.

O local estava vazio.

Não havia mais ninguém pra criticar.

Era melhor não chorar.

Melhor transparecer o que não era.

Porque talvez fosse o único lugar onde poderia estar.

Ficava lá A porta trancada A ausência.

As chaves estavam em seus bolsos Mas havia se esquecido.


Outra vez, Quiroga (isso devia ser um verbo... eu "quirogo", tu...)



Resista, você não precisa reagir a cada provocação, pois no caso da atualidade isso é feito, justamente, para desviar o foco de sua atenção, perdendo assim uma energia preciosa. Resista, continue agindo de acordo com seus planos.

terça-feira, julho 04, 2006

201


Inspirou. As luzes acesas e a sombra nas cadeiras sufocavam, as persianas e a estante cheia de livros pareciam dobrar-se. Sem coragem, fechou os olhos. A visão era a mesma, com a exceção de que rodava. Abriu a boca para gritar. Silêncio. Preguiça de incomodar os vizinhos, aprontar confusão. O gancho do telefone pendulando. Vago. O encanamento contorcia e os barulhos insistiam em enroscar ao pensamento. Lembranças. O pequeno canário canadense tamborilava um canto nervoso. Ouvindo gente se espalhando por sobre as calçadas dos bares.


A mancha escorria vermelha já molhava a camisa, esticava e espremia no ritmo dos latejos da cabeça. Medo da imaginação. Ficava de fora, não tomava parte naquilo. Perdendo o ar, a liberdade, e sumindo. Lembranças. Encolhendo a cabeça dentro das inúmeras rachaduras do piso. A porta rufava e não queria calar. Sentia os pés surrarem o mogno belamente esculpido. Incômodo. O pulmão arfava em se soltar, se perder na agonia pulava por dentro e ofuscava as vistas. Obnubilando a centelha de vida. Pensamento pensando pensares que não se pensa.


Não queria levantar pra pegar água. A sede tinha diminuído e quase não incomodava. O copo vazio e a sentença. Colado ao chão. O canário tinha abaixado o volume, entoava tristes e curtos sibilos. Os rufos do mogno cessavam, sobrara o rangido do metal. Longe. De repente, tudo virou silêncio. Pessoas entrando correndo pela porta escorrendo pelas frestas da madeira. Sobravam livros, luzes e o canário. Lembranças. Encostou o ouvido no chão e tateou lentamente. Pensou que, caso se concentrasse, ouviria o seu coração bater. Expirou. Silêncio.