segunda-feira, maio 29, 2006

Sobre Sentimentos Oceânicos (De Bons e Maus Selvagens - Parte 2)

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Não sei se a idéia é original. Na verdade, acho que não. Quem já leu muito e se considera “experimentado” provavelmente não encontrará aqui nada de importante. Esses, sugiro, parem de ler e poupem tempo. Caso queiram ler algo realmente original, procurem textos de alguem que nunca se contaminou pelo silêncio do mundo. Porque o que eu quero é emprestar voz a um pensamento que me é importante.

De fato, uma experiência desse fim de semana, em Brasília pra variar, me fez pensar. No quanto somos agressivos. Como violentamos a liberdade e o direito do outro em função do nosso bel prazer. Não que eu deseje que isso nunca mais acontecesse, que o tudo fosse calmaria. Seria muita utopia para acreditar. Mas eu desejo que tais assassínios não fossem legitimados. Em que o descabido vil fosse punido.

Sem mais suspenses: o que eu vi foi um homem, doente mental, ser atirado cruelmente de um transporte em movimento. Ele simplesmente não conseguia se explicar e, ao que parece, queria embarcar com sua habilitação de deficiente, concedida pelo Ministério da Saúde. Ele foi hostilizado por feder, não conseguir organizar idéias coerentemente e porque Brasília é curiosamente pouco sensível à subjetividade do outro.

Ver tamanha injustiça e ter ficar covardemente inerte. O que poderia eu fazer, pular também? Hostilizar os opressores? Por ai. Tentei não me carregar da cólera que carreguava no dia anterior, que já havia tendido à insignificância. Pensei que seria inteiramente utópico desejar que nunca mais ninguém voltasse a violentar outra pessoa. Mas exigir que pequenos crimes deixem de ser legitimados, seria uma utopia bem menor.

A idéia é que todas as ideologias, convencidas de que devem fatalmente conduzir ao equilíbrio da sociedade, são utopias muito maiores. Vejo que o mundo progrediu no sentido de se desumanizar, consentindo cada vez mais numa vida habitada pela solidão, pelo silêncio e pelo egoísmo. Então... Bem óbvio isso. Mas o que me espanta é como a “luta” de muitos acaba por se identificar com a falta de trégua, onde tudo é permitido.

Onde a maldade vil é justificada pelo desejo do absoluto. Que quer compreender o mundo e, mais, que o mundo compreenda. Esse é o mundo onde todos somos, em algum momento, carrascos ou vítimas. E nosso ressentimento tente a divinizar tudo aquilo que nos oprime, o que é puro desperdício de energia, e é o que mais acontece nas ruas. Gastar tempo em pequenos pormenores carcomidos que não levam a nada.

O que custava deixar o senhor ir até o hospital em paz? Mais aterrador é pensar que que muitos fazem justamente isso. Gastam seus dias querendo reduzir o mundo a si mesmos. Como se tudo fosse um grande umbigo giratório. Os olhos da garota que me pediu dinheiro na rodoviária, duas semanas atrás. Eles também giravam. Não saem da minha cabeça. Isso foi o que me ocorreu, voltando de Brasília, em meio à palavras cruzadas.

Percebo que Sísifo, apesar de seu esforço, não tinha ninguém à sua espera na montanha. Apenas por isso o momento do rolar da pedra é, para ele, o momento mágico. Seu esforço não tem outra recompensa. Realizo que há outros momentos muito mais mágicos nessa vida. Depois de muito vagar, aprendi que a felicidade, além de ser um acordo com a existência, traduz-se melhor na unidade, que nunca encontramos em nós mesmos.

domingo, maio 28, 2006

N53G


°°°Amanheceu, eu percebi°°°Acordei tarde pra me redimir°°°Faltam pedaços a escolher°°°Por trás de cada anoitecer°°°

°°°Eles não vão nos sufocar°°°Com suas unhas bem feitas°°°Eles só vão desperdiçar°°°Suas juventudes desfeitas°°°

°°°Aconteceu, eu reagi°°°À razão que já cansou de existir°°°Faltam uma parte a recolher°°°Depois de cada entardecer°°°

°°°Pra regular o pranto vencido°°°E rejeitar o jogo vendido°°°Ou se é convencido°°°Esse “primeiro eu” “depois você”°°°

°°°Você não pode nos levar°°°Com sua alma entorpecida°°°Você não pôde nos tocar°°°Naquelas horas perdidas°°°

sexta-feira, maio 26, 2006

O MamutE (ou... um mamute)

Não sabia se era o último dos mamutes. Mas na guerra, sempre havia estado muito só. Antes que o primeiro inimigo tocasse o solo, o último deles recebia suas presas afiadas. Assim era. Enfrentava as situações complexas com precisão cirúrgica. Transpunha obstáculos pesados com os músculos, cultivados com as cicatrizes que aparentava. Uns poucos amigos lutavam ao seu lado, davam cobertura. Lutava porque sabia que morreria e saber isso disso às vezes era como estar já sem vida. E, sem vida, nada havia a perder.

Já que não sabia onde estava, não sabia mais de onde tinha vindo. Dispensava essas informações enquanto parecesse que havia lhe restado apenas um caminho em frente. E não havia vida para o Mamute. Pensava “Sou o último da espécie. Conheci coisas más e senti coisas más. Um bicho ruim eu sou”. Ele se achava o último porque ninguém o conhecia realmente, ninguém sabia quem ele era. Não conseguia entender porque às vezes chorava.

Mas sentia que algo havia mudado, que o agora era diferente. Via o gelo derretendo, a água correndo das montanhas, formando riachos e pequenos lagos. Espantado, ficava a fitar a superfície da água. Sem medo de parecer um Narciso descabido, e perder-se na admiração. Nunca houve esse perigo. Não havia nada a provar. As borboletas estavam ali. E resolveu que, por hora, conversaria com o riacho. Para perguntar o porque de chorar às vezes, se estava tão feliz. O riacho lhe disse que era porque o que o Mamute guardava dentro de si era algo de grande tamanho e valor.

Realizou que vivia como a água que corria, que não escolhia onde ia chegar, ou ainda não sabia como. Foi então que parou de correr. Não que pretendesse ficar assim pra sempre. Foi só pra ver como era, o que sentiria. E foi bom saber que tais segundos simples foram muito mais importantes do que duradouras complexidades. E percebeu que, por vezes, o grande momento não é o golpe bem desferido, mas estar melhor lugar para se apoiar e suportar violência de quem não entende a beleza. Talvez ele realmente não fosse um mamute afinal. Talvez fosse outra coisa, embora não soubesse ainda o que. Mas sabia que ia mudar, que estava mudando e gostava disso. Uma parte de si se jogaria do abismo. A outra enfrentaria a acrofobia característica dos mamutes e ficaria sã.

Seus amigos não entendiam porque ele queria mudar. Afinal, dava-se tão bem nas batalhas do dia a dia. Não compreendiam a mudança porque sempre viam o seu sorriso, mesmo durante os tempos glaciais, mesmo na guerra contra o frio. Mas não viam de verdade, seu verdadeiro rosto. O julgavam por sua fama, por seus sorrisos construídos, dos quais havia se despido muito há pouco, e não pelos sorrisos sinceros. Pela poeira que, sem querer, carregava no meio de todos aqueles pelos. Sentia que tinha sido um contrabandista de si mesmo, no meio de tanta pose. E quando recapitulava, as coisas, de fato, pareciam ficções. Um filme com cortes. Mas não seria mais assim.

Foi quando decidiu que o calor valia a pena. Que o degelo era o mais certo. Que era preciso se despir das ilusões, que ali não eram necessárias, e cortar todo o pêlo que sobrava. Mas achou que, quando se livrasse de todo aquele pêlo que cercava seu corpo, encontraria um boi. Achou isso por perceber que o olhar pousaria com mais calma sobre si mesmo. Sentiu uma ponta de medo. Porque, como um bovino a se contemplar refletido na água, ele se esqueceria rapidamente das questões anteriores. Como quem esquece dos dias que passaram e nem pensa nos dias que podem vir.

Outra ponta de medo. Dessa vez diferente. Daquelas que, antes de virarem pânico, viram coragem. E decidiu que ia livrar-se do espesso manto que o cobria, mesmo correndo o risco de sentir frio. E que lhe desculpassem os ofendidos. Havia mandado todo o ressentimento ir ecoar em outro desfiladeiro, não ia mais incomodar. Daí por vezes pensava no quanto estava desfamiliarizado consigo mesmo. O quanto seus gestos poderiam parecer estabanados e, as palavras, tolas ou mal interpretadas. Um pouco aflito ao pensar nisso. Sabia que uns iriam vê-lo e não gostariam, e outros nem se dariam ao trabalho. Outros ainda o veriam e esqueceriam seus próprios umbigos por um instante, felizes.

E sentiu que gostaria muito que cada um encontrasse em alguém aquilo que ele sabia que havia encontrado. Teve vontade de segurar a cada um deles pelos ombros, olhar em seus olhos e afirmar o quanto isso é verdadeiro. E, depois que fizesse isso, poderiam pensar o que quisessem. Ele já não se imortava mais. Percebeu enfim que, acima dos gestos, o sentimento era o que valia tudo. Era o instinto certo que o fazia tocar naquelas regiões indefiníveis da alma. Aprendeu que, na constância, poderia ser constante. E que, na rotina, o óbvio passava a ser poesia. Quanto o manto caiu, viu que não havia se tornado um boi. Era agora um homem.

terça-feira, maio 23, 2006

PUerilisMO [?] (ou "depois da TV a cabo")

Para que todos saibam como gostava de desenhos animados quando criança. Como achava que todos, incluindo os adultos, também gostavam. E como uma criança pode ficar ligeiramente decepcionada ao descobrir que bolinhas de gude não são indestrutíveis. Que, ao deixar um barquinho na pia do banheiro cheia e puxar a tampa do ralo, ele não permanecerá flutuando no ar enquanto a pia se esvazia. Ele vai descer acompanhando o nível da água. Que imãs não têm formado de ferradura. Que pular do telhado com o guarda-chuva aberto é perigoso. Que não conhece ninguém que levante uma bigorna assim tão facilmente. Ninguém que tenha segurado uma bomba na mão imaginando que ficaria apenas chamuscado, com o rosto em fuligem. Que bater com martelo no próprio dedo dói. Que ninguém tinha reais intenções de machucar. Que havia inocência nesses gestos.

segunda-feira, maio 22, 2006

Espaço do Sr. Quiroga: "Deixe o rio da vida correr, evite tentar ser maior, pelo menos dessa vez. Você pode se perguntar: mas como Eu tentaria ser maior do que o rio da vida? Pois sim, toda vez que você busca impor sua vontade tenta, tambem, ser maior do que a vida".

Diágolo interessante. Em que eu, mais uma vez, fiquei calado.

Em terra de cego... quem vê está no lugar errado

O ocaso vinha longe no horizonte quando os dois, já sentados na mesa do bar, olhavam lentamente o garçom trazer dois copos molhados e um limão partido ao meio. Conversavam.

– E ai, que contas?

– Conto a falta, que sinto neste instante específico.

– Ta. Explica.

– Falo de uma palavra. Sete letras. Que só existe na língua portuguesa. E corresponde a um sentimento muito maior que a razão.

– Saudade?

– É. Por ai.

– Como é isso?

– Olha, eu juro que se fosse pra ficar com esse papo de terapia, nem tinha te tirado da faculdade pra vir aqui...

– Ta. Só conta o que acontece, eu escuto e... cadê a cerveja que não chega?

– Essa falta. Outros tempos me faria ficar pesaroso, inseguro. Agora... não chega à causar propriamente alegria, mas enche o peito com um calor capaz de rasgar os lábios em um sorriso gostoso. E, se fechar os olhos nesse instante, você sente o calor se espalhando pelo corpo, relaxando os músculos e transportando você de volta ao momento saudoso.

– Isso não é saudade. Não stricto sensu. Isso é outra coisa.

– Ah, que bom que você sabe o que eu estou sentindo. Me diz o que é então.

– Quer ver?

– Hum...

– Garçom, agora que trouxe a cerveja, pode por gentileza pedir ao Sr. Adalberto aquele dicionário que ele guarda lá nos fundos? Aquele que eu pedi outro dia.

– Então... Mas e aí?

– Daí que você é um chique. Um europeu que nasceu aqui por azar. Você não sente saudade, uma vez que, como você mesmo disse, isso não existe na Europa. Os suecos sentem falta, isso é chique. A gente por aqui sente saudade mesmo.

– Você falou em Suécia. De onde eu vim, eles sentiam sim. Na falta de palavras. Na falta do absurdo. Por acaso isso também não é saudade?

– Viu? Tanto tempo fora do "Brazil" te fez mal. Te digo cantando: “Se queres compreender o que é saudade, terás que antes de tudo conhecer...”

– Continuar cantando Fagner e pedir que eu vá embora são coisas que mantêm uma tênue distância, você sabia? Eu com a Europa e você com sua tara pelo nordeste e seus frutos.

– Ok, desculpe. O que eu quero dizer é saudade só remete a alegria como quando se é criança. Só. No mais, traz uma certa tristeza pela vontade de ter de volta o que se perdeu. E isso é completamente diferente do que está acontecendo com você.

– Eu sei. Repara não. Tenho motivos para estar bem, contente. Mas às vezes dá um nó aqui no peito... E eu não entendo nada. O choro vem do vácuo e não tem razão de ser porque não estou triste ou deprimido. Não sei, mas tenho a impressão de que é isso que é a verdadeira e essencial saudade.

– Sabe o que é verdadeira e essencial saudade?

– Ahnm...

– Um dia, Minha filha me acordou. Eram 6 da manhã, e ela tinha três anos. Fez então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando eu morrer, você vai sentir saudades?" Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..."

– Nossa, verdade isso?

– Não. Tirei de um texto do Rubem Alves. Mas sei que ela, com três anos, já sabia que a morte é onde mora a saudade.

– Quanto tempo faz?

– Dois anos

– Eu sinto muito. Queira ter estado aqui.

– Não esquenta. Você estava longe, cumprindo seu papel no mundo, que com certeza sempre foi se tornar um cidadão europeu. E você não poderia ter feito nada. Ninguém poderia. Esta me ajudando agora, conversando comigo e agüentando meus resmungos.

– Pode ser que, o que vivemos hoje, é o momento que futuramente nos trará saudades que nos fará sorrir ou chorar.

– A verdade é que a sobriedade do tempo é alucinógena. Tanto faz um dia ou dois anos .

– Chegou o dicionário.

– Sim. Saudade, segundo o Dicionário Aurélio, trata-se de ”uma lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhadas do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las”.

– Hunm... entendi.

– Viu porque você não está com saudades?

– Sim.

– E agora: como é isso?

– Algo que te deixa tão feliz que até dói. Acho que a palavra do dia, em sueco, é "prestationsångest". Significa ansiedade frente a uma realização.

– Correto. Acho que agora entendestes o que estava dizendo: Por cada momento ser uma futura saudade, comemore-o da melhor maneira possível, sendo feliz.

– Outra cerveja?

– Sim. Outra cerveja.

domingo, maio 21, 2006

Capital



Me diz agora aonde ir

Se eu não me encontro em nenhuma rua

E ninguém fica o dia a sorrir



Você sempre anda tão rápido

E eu sigo tão torto

Que não dá tempo de dizer

Que mesmo morto eu te queria aqui



Mas fica sempre bela para mim

E a todos que podem pagar

Que vêem sua virtude de perto



E sempre dorme em paz

Você sempre dorme em paz

Você sempre dorme em...



Eu fico aqui juntado cacos

Que te sobram em todo lugar

De onde você não se percebe

Não acorda e ainda vem negar



E você sempre dorme em paz

Você sempre dorme em...

Sempre dorme em paz

segunda-feira, maio 15, 2006

HildA (ou... vocação para crítica literária [?])

Depois de muito, muito lutar, contra meu comodismo e contra a dificuldade da Obra, consegui terminar de ler “Tú não te moves de ti”, de Hilda Hist. E o que eu posso dizer? Enfim. Resumo. Tadeu é a razão, um empresário bem-sucedido que ao chegar à meia-idade passa a se questionar sobre a própria existência e a vida de aparências que leva em companhia da mulher. Ele deseja seus livros, criação artística e o ostracismo, em detrimento do trabalho administrativo na empresa.

Matamoros é uma menina habituada desde muito cedo ao... ahnm, “contato” com os homens. Sua mãe, Haiága, chama então um sacerdote exorciza-la. E eis que também o religioso se envolve com ela. Ela começa a disputar com a mãe o amor do mesmo homem. Enfim. Complexo de Édipo, que, em Hilda fica bem mais... colorido. "Axelrod" é novamente uma reflexão sobre o tempo e a finitude, que domina o fluxo desenfreado de idéias. Nesta última história, porém, o caos me pareceu mais ordenado. O que, de forma paradoxal, me deixou ainda mais confuso.

Arrisco-me a analisar. Em uma metáfora bem vulgar, eu diria que o livro é como um milkshake de ovomaltine, só que sem leite. Maravilho e denso. Seu modo fragmentado e convulsivo, o modo como ela constrói três histórias distintas entre si, mas conectadas em fluxo de pensamento. Como já dizia a Gestalt, “o todo é maior do que a soma das partes”. E isso bem se aplica aqui. Estou certo de que não entendi tudo o que precisava para satisfazer minhas interpretações, carcomidas pela falta de paciência e tempo para ler de novo.

Apesar de não possuir uma linguagem linear, de não seguir convenções gramaticais e ter um ritmo próprio, tenho certeza de que não é Hilda que é incompreensível. As pessoas é que, em geral, adoram não compreender. É bonito ter em casa alguma coisa que não se compreende. Eu já acho que cada um deve entender a sua verdade sobre a história. Mas, para mim, mais do que um entendimento, a obra dela mostra uma essência contraditória, que é o que me atrai. Não era mulher de meias palavras ou rodeios. Escrevia com paixão, beleza, violência, amor, loucura. E eu sei admirar isso em alguém.

domingo, maio 14, 2006

TOdo o amor do munDO (ou... das alegrias e desventuras da maternidade)


Acordei e resolvi ligar a TV. Propagandas do período do dia das mães. Românticas e belas. Dá vontade de sair comprando tudo. Qual milagre o marketing não faz? "Be heroes, just for one day" (David Bowie). E é a sina das mamães. E acho que apenas um dia é injusto. Não há dia do "homem-caucasiano-de-30 anos". E temos dias para um monte de coisas. Reparar injustiças?
E eu acho que dar às mães apenas um dia é injusto sim. Parei pra pensar no quão complicado é ser mãe. Profissão em período integral, sem férias, hora extra, direitos. Nove meses de expectativas, sono, enjôos, humor alterado. Fora as infindáveis buscas de móveis e roupinhas para o futuro rebento e, por fim, as intermináveis contas. Fralda suja, seis trocas de roupa por dia, choro de madrugada, peito trincando, etc e tal.
Segunda fase. Educar. Ensina a falar, banheiro, engatinhar, andar, mostrar o mundo. Teoricamente, o que pode e o que não pode. Dai o pimpolho cresce, passa a responder, achar que é gente, até que, um dia declara a sua independência e decreta o absurdo: mãe é um saco, pegajosa, puxa saco, inconveniente, fuça em tudo, fiscaliza, quer decidir rumos da nossa vida.
Além disso, hoje a mãe tem de dar conta do sustento da casa. Direitos iguais. Que justo, não? Sai voando do trabalho, com o peito cheio de leite, doendo e derramando,pra ver seu faminto. Fora as febres de madrugada, doença do filhote, dentinho nascendo, fazer e zelar da comidinha do bebê, além das obrigações de esposa e de dona do lar.
Entretanto, o fato é que eu poderia ficar dias tentando entender o que, como homem, nunca conseguirei em complitude: o valor e o preço da satisfação de ser mãe, coisa para a qual ninguém está, nem será preparado. Recebendo algo que não tem preço, amor que não há igual.“Renovadora e reveladora do mundo. A humanidade se renova no teu ventre, mãe”.(Cora Coralina)



Esse texto é dedicado a todas as mães. Duas em especial. À minha, Angélica, por bravamente me suportar todos esses anos. Com seu temperamento forte e sui generis, ela conseguiu fazer tudo o que eu descrevi acima com maestria. O que eu sou hoje, devo basicamente à ela. Eu a amo muito e agradeço. E se o Dia das Mães servir pra me fazer pensar sobre isso, então já achei uma utilidade. Segunda pessoa. A mais nova mãe que eu conheço: Camila Beja. Desejo a você e sua filhinha linda, Débora, toda a felicidade do mundo.


terça-feira, maio 09, 2006

Eis que ontem, à procura de um texto sobre "Performance Pós-moderna", dissecando uma pilha de papeis velhos, acho algo que me vem à atenção. Trata-se de um pequeno exercício de meu finado curso de inglês. Data de 1997:



Peace feels like heaven

Peace smells like green grass at night

Peace tastes like a sweet candy heart

Peace sounds like a waterfall far away

Peace looks like the color of your eyes



Agora eu considero que sei bem mais inglês do que sabia naquela época. E bem menos do que já soube a uns 2 ou 3 anos atrás. A certeza da perda pelo desuso. Mas eu ganhei sabedorias também. Disso eu tenho certeza. Então, acrescento:

All these things are true. Bet on it. If i have to write these lines again, I woudn't change anything at all. They make more sense now than when I wrote them. And I'm certanly sure of that.

domingo, maio 07, 2006

... (ou “O Dia em que a Terra Parou”)

Nada deve ser escrito. O que foi escrito não deve ser lido. O que foi lido não deve ser dito. Pois hoje é dia de um significante que não significa a si mesmo, porque seu significado transcende a tudo. Porque as palavras perdem sentido diante de momentos fecundos.

Todo pecado foi anistiado. E tudo o que um dia foi pôde voltar sem mácula alguma. Porque hoje os anjos se regozijam em festa no céu. Há recesso no purgatório e, no inferno, ponto facultativo. E todos os heróis foram pra casa, sentindo-se desnecessários.

Esse texto foi escrito porque este é o dia que regras não fazem a menor diferença. Porque os traços do real estão de folga e foram passear na praia. Porque não há evolução, não há avanço e não há progresso. A leveza do instante substituiu o grande plano.

Porque hoje o sonho veio e salvou o mundo com seu sorriso. E a grandeza do divino agora se desfalece diante da alma, da beleza e da inocência humanas. Diante de algo que os anjos nunca vão entender e os homens nunca vão conseguir explicar.

sexta-feira, maio 05, 2006

How to fly (or... if you wanna reach the sky, you'd better know how)

Quando acordou, viu que tinha sonhado. Era mais um sentimento do que uma impressão consciente. E tentou começar o dia se lembrando de tudo. Mas a memória foi traiçoeira. E a incerteza o fez esquecer a parte que faltava do quebra cabeças.

Resolveu que não queria apenas visitar o mundo por mais um dia. Decidiu que não queria apenas sentir o calor do sol. Queria ir até o Olimpo e roubar o fogo dos deuses, para compartilhar com quem lhe presenteasse com um sorriso sincero.

Mas Prometeu era um Titã, e mesmo assim falhara ao fim. Então, como fazê-lo, não sendo um super-homem? Como se banhar no infinito e manter-se seguro? Sonhos. Pensou que talvez, por hora, não precisasse deles. Pensou que talvez Prometeu tivesse apenas sido descuidado.

Chegaria ao sol portando asas e roubaria o fogo eterno. Mas não cometeria os mesmos erros de Ícaro: forjaria suas asas na alma, para que não derretessem à primeira dificuldade. Coragem, coragem. Medo de cair. Medo de cair de tão alto. Medo de sentir dor. Medo de se sentir fraco.

Não conseguia deixar de duvidar. Se realmente conseguiria alçar vôo carregando a culpa de todos em que já infligira sofrimento. Peso muito grande para levantar dessa forma. O medo de não sair do chão. Pensou em manter do sol a distância necessária para aquecer o coração sem queimar as asas.

Foi quando uma estrela pousou como sombra de sonho em seu ombro, vinda do céu. Ofereceu: “dou-te todo o meu brilho se disseres porque ris tanto se és tão triste assim”. Ele disse: “Ora, vamos dançar”. Enquanto dançava, pensava se era justo compartilhar a luz apenas com os sorrisos sinceros.

Pensou que apenas vemos sombras sem conhecermos a luz. Não tocamos a alma por julgarmos possuir todo o fogo que precisamos em nossas mãos. Sentiu o vazio da solidão soprando em seu ouvido. Dizendo-lhe para rir de tudo aquilo. Dizendo-lhe pra se encolher embaixo do lençol e se esconder do frio da noite.

De que adianta saber rir apenas das estrelas em luz desfalecidas? Rir da liberdade e do amor? De que adianta prolongar uma vida com a alma corroída? Preferia conviver com a dúvida a negar o belo. Respirou fundo. E achou que tudo era uma questão de não deixar o sol lhe queimar o olhar e ir em frente.

Percebeu por um momento gostar de ser a si mesmo. Gostava de se agarrar a esperança da inocência. Que gostava ainda de sonhar, muito embora não soubesse mais como. E concluiu que a empreitada valia a pena. Concluiu que se, ao final, ele sofresse eternamente o castigo divino, teria valido a pena mesmo assim.

quinta-feira, maio 04, 2006

FElicidaDE e DúvidA (ou... algumas certezas acerca do absurdo)


Considero Camus um dos sujeitos mais humanos que já existiram. Ao ponto de sua existência ser desadaptativa entre nós, meros humanos. Nunca conseguiu arrepender-se verdadeiramente de nada. Ele possuía a alegria do Sísifo unicamente pelo motivo de que seu destino lhe pertencia, porque tinha consciência da escolha de suas tarefas.

Acredito que só há um mundo. Mesmo que alguns não creiam nisso, e criem mundos só para si mesmos. Ainda assim, acho que vivemos todos aqui, e juntos. E, nesse mundo, a felicidade e o absurdo são filhos do mesmo pai. São inseparáveis. Nós vivemos no meio disso. E a dúvida me é bem vinda quando eu consigo entendê-la.

Mas seria errado dizer que a felicidade nasce da descoberta do absurdo. Acontece também de que do sentimento do absurdo nasça da felicidade. Ao mesmo tempo, não descobrimos o absurdo sem nos sentirmos tentados a escrever um manual qualquer sobre felicidade. Ando me sentindo tentado ultimamente.

quarta-feira, maio 03, 2006

PAsseIO (ou... de volta à Avenida Goiás)

Então. Hoje a minha falta de tempo se dispôs ao inesperado. Resolvi andar a avenida Goiás inteira antes de trabalhar. Assim como por várias vezes fiz durante meus 14 anos, sem ao menos titubear. Pensei em quantas léguas estou deixando de andar. Pensei em quantos livros eu deixo de ler. Quantas músicas eu deixo de escutar. E resolvi entrar no "sebo verde" (eu chamo os sebos pela cor da fachada). E me veio nostalgia. A coleção de Jorge Luis Borges que eu deixei de comprar pela falta de mesquinhos R$ 160. Eu devia ter pedido emprestado. Pergunto ao balconista: foi vendida há tempos.

De repente, um feixe de luz na minha empoeirada perspectiva existencial momentânea. Eis que me deparo com um livro de Daniel Quinn. Isso sim é algo difícil de achar dando sopa por ai. Puro aforismo em cento e poucas páginas. Desejo dele de ser mais "escancarado" em seus pensamentos. Muito justo. Eu devia ser mais escancarado em meus pensamentos também. E eu também disse que não compraria cds. Agora eu tenho acesso a mp3 de bandas islandesas. Achei que não precisasse mais disso. Mas estava lá. Novo cd do Coldplay. Metade do preço. E lembrei porque eu adoro os sebos.

Orgias gastronômicas à parte. Me senti um pouco mais leve, apesar do peso extra na minha mochila. Ao passar pela "loja do tio raizeiro", senti novamente um cheiro de vida. Ou de quentro, não sei bem. No cruzamento da avenida Goiás com a Paranaíba, parei e comecei a olhar os lados. Procurando "todos", "ninguém" e a "mim". Sinceramente, não sei quem estava mais presente nesse momento.

O resto do caminho foi bem normal. Porque, diante de lojas de instrumentos musicais, eu continuo o mesmo garoto de 14 anos. Bom. É foi muito bom. Tenho o que ler e escutar. Eis que chega a hora de trabalhar. Talvez seja a hora de guardar as camisas de flanela imaginárias no armário do pensamento outra vez.
Talvez não.

terça-feira, maio 02, 2006

O Sr. Quiroga hoje me disse que eu preciso mudar radicalmente meu ponto de vista, para acompanhar o ritmo louco com que a minha realidade anda se transformando. Eu realmente não sei como ele descobre essas coisas, mas ele diz que a alma ainda se apoia nos pontos de vista em momentos de insegurança. Diz ainda que, se eu dividir a realidade e encarar uma coisa de cada vez, tudo fica menos complicado. E talvez, frente ao novo, eu realmente não precise do antigo. Mas ele faz isso parecer fácil. Então, no fim das contas, eu acho que o que ele quer dizer é: eu deveria fechar meus olhos e respirar bem fundo.

Hoje é aniversário de uma boa amiga. Se eu conseguir salvar o "meu" mundo (leia-se: muito trabalho a ser feito) e dar um abraço nela, me dou por satisfeito.

segunda-feira, maio 01, 2006

SOrte de hoJE (ou... "Simplicidade de caráter é o resultado natural da reflexão profunda"[?])

Hoje eu acordei com umas vontades diferentes. De me sentir inseguro. De estar no direito de achar que eu posso mudar o mundo. De dizer às pessoas o quanto o mundo exige muito de mim, e dizer o quanto isso tem me cansado. Vontade de achar a vida muito boa, porque há motivos. Ouvir música o dia inteiro. De dançar. Sentir a água correndo meu corpo durante o banho. De parar na rua e olhar as pessoas, mesmo sem saber quem elas são. Vontade de aumentar o som do carro e dirigir na auto-estrada. De ficar em casa um dia inteirinho. De dar trelas sozinho e não olhar para os lados pra saber se tem alguem me olhando. Vontade de que meu bom humor seja sempre sincero. De cultivar sentimentos, e regá-los todos os dias com carinho. De chorar como criança quando ficar com medo. De ter tempo pra escrever todo santo dia, e sempre algo inspirado(r). De me contradizer a todo instante. De não gastar energia evitando que as coisas me atinjam. Vontade de rir ante à perfeição, porque sei que ela é mentirosa. E de cumprimentar a vida. De sempre saber o que fazer com o que eu sinto. E de não ter nada pra provar, nem à mim mesmo. Vontade de saber o que vai acontecer no amanhã.

SErá mesMO? (ou... como falar de sentimentos, cientificamente, pode ser muito sem graça)

A aprendizagem dos sentimentos não se difere da aprendizagem dos comportamentos públicos. A única diferença é que, nos comportamentos privados, apenas o próprio organismo pode dar conta de sua ocorrência. O que acontece é que o indivíduo aprende a falar de seus sentimentos é a partir do contato com sua comunidade verbal. Se ele aprende a falar “estou com dor”, podemos entender que a aprendizagem do que é esse evento privado está intimamente relacionado com o que o indivíduo aprende publicamente.

Então, muito do que uma pessoa conhece de si mesma depende das contingências às quais ela foi exposta durante a sua vida. O auto-conhecimento é dado pela comunidade à qual o indivíduo pertence, mas tem tembém um valor especial para o próprio indivíduo. Uma pessoa se tornou consciente por meio de perguntas que lhe foram feitas está em melhor posição de prever e controlar seu próprio comportamento encoberto. Assim, é a comunidade verbal do indivíduo que o ensina a nomear objetos, e tambem a se referir sobre o que percebe e sente.