quinta-feira, agosto 31, 2006

"O caminho dos justos é rodeado por todos os lados pelas injustiças dos egoístas e pela tirania dos homens de mal. Abençoado é aquele que, no nome da caridade e da boa-vontade pastoreia os fracos pelo vale das sombras, a quem ele verdadeiramente protege, e encontra suas crianças perdidas. E eu atacarei com grande fúria àqueles que tentam envenenar e destruir meus irmãos. E você saberá que sou o Senhor quando minha vingança cair sobre você. Falo isso faz muito tempo. Eu nunca pensei realmente o que isso significava. Pensava que era algo pra dizer a um filho da mãe, antes de atirar nele. Mas, eu vi uma coisa hoje de manhã que me fez pensar duas vezes. Agora, fico pensando: Pode significar que você seja o homem mal. E eu sou o homem justo. E o Sr. 9mm aqui é o pastor protegendo os justos no vale da sombras. Ou pode ser que você seja o homem justo e eu o pastor, e é o mundo que é mal e egoísta. Eu gosto disso, mas não é a verdade. A verdade é que você é o fraco. E eu sou a tirania dos homens de mal. Mas eu estou tentando. Estou tentando mesmo ser o pastor." [Jules, Pulp Fiction]
Os dias em que a comida quase não passa pela garganta são como se fossem os últimos que teremos em nossas vidas. E o quase é mesmo por pura falta de opção.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Insônia. Páginas virgens espalhadas pelo chão. Letras poupadas na erosão do tempo. Inércia. Livros empoeirados. Ausência de movimento. Trânsito parado. De volta, há livros, mundo, notícias, blogs. O ar é translúcido, mas irrespirável. Rinite. Um único batimento cardíaco, depois outro e outro. Critérios e afinco. Exeqüibilidade. Evitar o dia seco. Tempo corcunda.

terça-feira, agosto 15, 2006

B

Nossa cultura nos ensina que o mundo não é completo sem nós. Que nós nascemos para conquistar o mundo, pois ele é uma selva que precisa ser controlada. Porque é esse o destino e propósito da criação. Que a nossa história é a única história, e que as outras culturas são primitivas e atrasadas. Mas é a humanidade que destrói o mundo, não a natureza. Erupções vulcânicas e tsunames são café pequeno perto do estrago que causamos ao nosso ecossistema todos os dias. A idéia é olhar para nossa própria cultura e pensar o que realmente queremos dela. Nossa civilização é o ápice e não há nada além dela? Recuso-me a acreditar que nossa sociedade está tão certa quanto pensa, e tão sem salvação quanto parece.

sexta-feira, agosto 11, 2006

O Planeta

Ontem eu vi. Marte, mais brilhante. Meus olhos nus, seu brilho rivalizando a lua cheia. Li que no dia 27 vai estar mais próximo a Terra. À meia-noite e meia, vai ser como ver duas luas. Outra. A próxima vez que Marte ele ficar tão perto assim, o planeta estará em 2287. E ninguém que vive hoje terá oportunidade de observar isso novamente.

Uma história parada, que nem sequer consegui escrever até o meio. E agora o cheiro do café ao lado e minha ânsia de parar o tempo. Mas não é preciso parar para sentir, é preciso coragem. É bem mais do que tudo o que normalmente a gente vê na TV ou livros. Não é questão de estilo, de gosto, ou opinião. Tudo surge de uma decisão solitária.

Sentir é caráter. E o meu jeito quase vem de uma incompetência de ser diferente. É não encontrar uma desculpa para se adaptar ou fugir. É uma obstinação que supera a lealdade. E que assusta. Que não se diminui com a insegurança, mas se aumenta. É preciso algo que vem de dentro, um sustento para vencer o receio de ser incompreendido.

Para não esquecer de repetir para conferir se há claridade. Grande parte das vezes, é não precisar dizer por que. É andar desavisado de gramática, é o medo normativo, é a vírgula entre o sujeito e o verbo. É o que tenta ir alem do que a memória consegue se lembrar, e que eu carrego na minha sacola pra onde quer que eu vá, em qualquer tempo.
- Alô, Coordenadoria para Assuntos Extraterraplaneres, Secretaria do Além, Sr. Quiroga falando.
- Fala...
- O que?
- Você sabe...
- Sei do que, que tá falando?
- Sou eu, agora fala.
- Que bicho te mordeu.
- Ansiedade.
- Uhmn... tá. O tempo da realização de seus sonhos maiores e melhores não foi sepultado, apenas protelado. Pelo que sei, voce não deveria gastar um instante sequer lamentando-se por ter seus recursos concentrados em emergências.
- Ahnm. Valeu, agora tenho que ir. Abraço.
- Abraço.

segunda-feira, agosto 07, 2006

Mareador

Era um tempo em que não se julgava sonhar. Era vítima do se achar são. Era um outro gosto por viver, viver, viver. Era o voltar ao início com novo ânimo e novo gosto. Era gostar mais de si mesmo, e nunca se satisfazer. Era um pensar desconexo, uma flâmula anexada num papel de bom-bom. Era de se excluir palavras repetidas. Era para decidir pensar melhor na vida, e resolver por dizer sim ao sim, e não ao não. Era um tudo ou nada flexível, calculado. Era de se voltar atrás pra dizer que sente falta. Era um tempo em que, pra se viver, era preciso saber esperar. Era uma hora feita de sorrir, além. Era posar de forte para o bicho papão, encolhendo a bexiga. Era um dosar de contramão, era sinuoso o olhar em direção ao que se perdeu. Era mera previsão, um remar de maré alta na escuridão. Era de se esperar no cais. Era apenas nada de mais.

domingo, agosto 06, 2006

Pluricelular, apartidário, imperfeito. Tenho ouvidos irritados e olhos míopes. Prefiro falar baixo. Já desisti de ter um penteado decente. Já pratiquei quatro dos sete pecados capitais, e desrespeitei metade dos dez mandamentos. Bom gosto para consertar a tristeza démodé. Sou careta. Natural, como a distração. Gosto de olhares, rascunhos e tudo o que tem brócolis e couve-flor. Sinto-me pelado sem um relógio. Faço pequenos piques nas horas tentando estender o tempo. Menos explosivo do que deveria. Não bebo, não fumo, nada de ilícito ou hiperdosado. Faço que mais gosto de fazer, com quem mais gosto de fazer. Mais ansioso do que às vezes consigo suportar. Já curei muita insônia com Kierkegaard e Cartoon Network. Procuro o colorido de toda paisagem. Costumo desconfiar dos excessivamente simpáticos. Encontrei beleza em uma Gibson Lês Paul seis meses antes da primeira paixonite aguda. Acho que escrevo mal. Trânsito não me estressa. Aprecio muita percepção, improvisos sem linguagem de dicionário. Abstrações plenamente compreendidas, chorar para mim mesmo. Gosto de janelas. Interessam-me os detalhes, os pontos de fuga. Adoro, descubro, cada detalhe, cada palavra nova, neológica, cada jeito diferente de falar a mesma coisa. Cada jeito diferente de se ver uma nova paisagem. E fico quietinho, só sentindo. Aprecio atalhos mais longos. Os nomes diferentes para um mesmo lugar. Sei do único jeito que se pode conhecer, que é vivendo. Descobri que o melhor caminho entre dois pontos pode ter muitas curvas. Agora tenho atitude, assumo meus desejos, corro atrás deles, me surpreendo. Aprendi com alguém a ler o que está escrito entre duas linhas. E que voar é mais uma questão de se sentir leve do que se livrar do peso.