quinta-feira, maio 04, 2006

FElicidaDE e DúvidA (ou... algumas certezas acerca do absurdo)


Considero Camus um dos sujeitos mais humanos que já existiram. Ao ponto de sua existência ser desadaptativa entre nós, meros humanos. Nunca conseguiu arrepender-se verdadeiramente de nada. Ele possuía a alegria do Sísifo unicamente pelo motivo de que seu destino lhe pertencia, porque tinha consciência da escolha de suas tarefas.

Acredito que só há um mundo. Mesmo que alguns não creiam nisso, e criem mundos só para si mesmos. Ainda assim, acho que vivemos todos aqui, e juntos. E, nesse mundo, a felicidade e o absurdo são filhos do mesmo pai. São inseparáveis. Nós vivemos no meio disso. E a dúvida me é bem vinda quando eu consigo entendê-la.

Mas seria errado dizer que a felicidade nasce da descoberta do absurdo. Acontece também de que do sentimento do absurdo nasça da felicidade. Ao mesmo tempo, não descobrimos o absurdo sem nos sentirmos tentados a escrever um manual qualquer sobre felicidade. Ando me sentindo tentado ultimamente.

quarta-feira, maio 03, 2006

PAsseIO (ou... de volta à Avenida Goiás)

Então. Hoje a minha falta de tempo se dispôs ao inesperado. Resolvi andar a avenida Goiás inteira antes de trabalhar. Assim como por várias vezes fiz durante meus 14 anos, sem ao menos titubear. Pensei em quantas léguas estou deixando de andar. Pensei em quantos livros eu deixo de ler. Quantas músicas eu deixo de escutar. E resolvi entrar no "sebo verde" (eu chamo os sebos pela cor da fachada). E me veio nostalgia. A coleção de Jorge Luis Borges que eu deixei de comprar pela falta de mesquinhos R$ 160. Eu devia ter pedido emprestado. Pergunto ao balconista: foi vendida há tempos.

De repente, um feixe de luz na minha empoeirada perspectiva existencial momentânea. Eis que me deparo com um livro de Daniel Quinn. Isso sim é algo difícil de achar dando sopa por ai. Puro aforismo em cento e poucas páginas. Desejo dele de ser mais "escancarado" em seus pensamentos. Muito justo. Eu devia ser mais escancarado em meus pensamentos também. E eu também disse que não compraria cds. Agora eu tenho acesso a mp3 de bandas islandesas. Achei que não precisasse mais disso. Mas estava lá. Novo cd do Coldplay. Metade do preço. E lembrei porque eu adoro os sebos.

Orgias gastronômicas à parte. Me senti um pouco mais leve, apesar do peso extra na minha mochila. Ao passar pela "loja do tio raizeiro", senti novamente um cheiro de vida. Ou de quentro, não sei bem. No cruzamento da avenida Goiás com a Paranaíba, parei e comecei a olhar os lados. Procurando "todos", "ninguém" e a "mim". Sinceramente, não sei quem estava mais presente nesse momento.

O resto do caminho foi bem normal. Porque, diante de lojas de instrumentos musicais, eu continuo o mesmo garoto de 14 anos. Bom. É foi muito bom. Tenho o que ler e escutar. Eis que chega a hora de trabalhar. Talvez seja a hora de guardar as camisas de flanela imaginárias no armário do pensamento outra vez.
Talvez não.

terça-feira, maio 02, 2006

O Sr. Quiroga hoje me disse que eu preciso mudar radicalmente meu ponto de vista, para acompanhar o ritmo louco com que a minha realidade anda se transformando. Eu realmente não sei como ele descobre essas coisas, mas ele diz que a alma ainda se apoia nos pontos de vista em momentos de insegurança. Diz ainda que, se eu dividir a realidade e encarar uma coisa de cada vez, tudo fica menos complicado. E talvez, frente ao novo, eu realmente não precise do antigo. Mas ele faz isso parecer fácil. Então, no fim das contas, eu acho que o que ele quer dizer é: eu deveria fechar meus olhos e respirar bem fundo.

Hoje é aniversário de uma boa amiga. Se eu conseguir salvar o "meu" mundo (leia-se: muito trabalho a ser feito) e dar um abraço nela, me dou por satisfeito.

segunda-feira, maio 01, 2006

SOrte de hoJE (ou... "Simplicidade de caráter é o resultado natural da reflexão profunda"[?])

Hoje eu acordei com umas vontades diferentes. De me sentir inseguro. De estar no direito de achar que eu posso mudar o mundo. De dizer às pessoas o quanto o mundo exige muito de mim, e dizer o quanto isso tem me cansado. Vontade de achar a vida muito boa, porque há motivos. Ouvir música o dia inteiro. De dançar. Sentir a água correndo meu corpo durante o banho. De parar na rua e olhar as pessoas, mesmo sem saber quem elas são. Vontade de aumentar o som do carro e dirigir na auto-estrada. De ficar em casa um dia inteirinho. De dar trelas sozinho e não olhar para os lados pra saber se tem alguem me olhando. Vontade de que meu bom humor seja sempre sincero. De cultivar sentimentos, e regá-los todos os dias com carinho. De chorar como criança quando ficar com medo. De ter tempo pra escrever todo santo dia, e sempre algo inspirado(r). De me contradizer a todo instante. De não gastar energia evitando que as coisas me atinjam. Vontade de rir ante à perfeição, porque sei que ela é mentirosa. E de cumprimentar a vida. De sempre saber o que fazer com o que eu sinto. E de não ter nada pra provar, nem à mim mesmo. Vontade de saber o que vai acontecer no amanhã.

SErá mesMO? (ou... como falar de sentimentos, cientificamente, pode ser muito sem graça)

A aprendizagem dos sentimentos não se difere da aprendizagem dos comportamentos públicos. A única diferença é que, nos comportamentos privados, apenas o próprio organismo pode dar conta de sua ocorrência. O que acontece é que o indivíduo aprende a falar de seus sentimentos é a partir do contato com sua comunidade verbal. Se ele aprende a falar “estou com dor”, podemos entender que a aprendizagem do que é esse evento privado está intimamente relacionado com o que o indivíduo aprende publicamente.

Então, muito do que uma pessoa conhece de si mesma depende das contingências às quais ela foi exposta durante a sua vida. O auto-conhecimento é dado pela comunidade à qual o indivíduo pertence, mas tem tembém um valor especial para o próprio indivíduo. Uma pessoa se tornou consciente por meio de perguntas que lhe foram feitas está em melhor posição de prever e controlar seu próprio comportamento encoberto. Assim, é a comunidade verbal do indivíduo que o ensina a nomear objetos, e tambem a se referir sobre o que percebe e sente.