quinta-feira, agosto 30, 2007

Mensagem de Formatura

Não é fácil descrever quando é o fim de uma jornada. Para mim, esse término tem gosto de início de caminho, tem cheiro de caminhar. Se parece que passou muito rápido, provavelmente deixará saudades. Daqui pra frente, mais desafios virão. A grande poesia da vida é transformar em verso cada dificuldade, toda pedra que aparecer. O que ela espera de nós é coragem para enfrentar, fundamentada na experiência e sabedoria adquiridas a todo momento, em cada aula, conversa, leitura, distração, choro ou riso que molde nossa individualidade. Utilizemos o que aprendemos nas tantas jornadas da academia: sejamos corajosos, autênticos, honestos e bondosos de coração.

sexta-feira, agosto 24, 2007

Réquiem das memórias prisioneiras

Falar anda chato. Talvez porque ande vendo muita coisa errada e sem jeito, e ainda incomoda. Menos, porque eu não vou resolver nada. Tenho a certeza de que sempre estive errado, e de que isso é minha salvação. Certas marcas, porém, vão para além da pele, para além da carne e ossos. Se escondem nas partes mais obscuras. Estão lá, atarraxadas como bala de caramelo em dente molar. E basicamente não assunto para escrever, além do que sempre houve. A sensação de que sempre soube demais, e de que é ótimo saber que não sei um bando de coisas. Preciso é me lembrar mais, para depois deixar as lembranças irem embora, e começar a ser o que não sei que sou. Não vou falar mais nisso, do que inclusive já não falei agora, me dando ao luxo de contar tudo no caminho.

Pegadores de Memórias

A idéia vem da obra de Daniel Quinn. Se você leu, já sacou, se não, explico-me: esse autor trabalha com dois conceitos, Pegadores e Largadores, que costumam, segundo um velho amigo meu e o próprio Quinn, ser bastante confundidos. Ele define Pegadores como as pessoas que tentam pegar o controle do mundo em suas mãos, acham que o modo como vivem é o melhor e que todos deveriam viver assim, e não querem desistir dele por nada. Largadores são os que decidem largar o controle do mundo nas mãos dos deuses, ou seja, das forças da natureza, o que obviamente nos remete a tribos não civilizadas.
Pense nos indígenas da Melanésia (não do Brasil, porque aqui tem muito índio que tranca a comida e negocia terra), aqueles cuja organização social não requer necessariamente intervenções severasno mundo, apenas vivem com o que é necessário para sua sobrevivência.
Pois bem, somos tambem pegadores de memórias. A espécie humana não se contenta em dominar o presente: a gente domina o passado também, a ai de quem diga que não dominaremos o futuro, haja mãe Diná. Controlamos inclusive o que deve ser lembrado, controlamos o que deve ser esquecido.
O resultado:a vida vira filme, editado, mixado, masterizado, com trilha sonora sutil que aumenta nas partes mais emocionantes, verdadeiro melograma. Cada lembrança é meticulosamente estudada pra saber se ela precisa ou não estar ali. Não é atoa que os mecanismos dos quais fala a psicanálise tenham nomes tão sugestivos: repressão (ou recalque), isolamento, ... É exatamente isso que a gente faz.
Obvio que nada disso é intencional. É tudo tão treinado durante o nosso desenvolvimento, como fazer diferente? Não obstante, pensamos que conhecemos nossa própria natureza. Sabemos exatamente como sempre fomos, e com uma boa previsão do que sempre seremos.
Pois bem. É minha opinião que, além de um Grande Esquecimento cultural dos Pegadores como grupo, há tambem, individualmente, há uma certa dose de esquecimento ontológico, pessoal, que adquirimos em nossa história de vida, e que é o ponto fundamental desse texto: o fato de a maioria de nós pensar, viver e tratar o mundo da forma como olha pra ele agora, mas considerando que, no passado, as coisas sempre foram assim. Eis aqui o sujeito que não aceita escrever por escrever, nas palavras do poeta Roger Samuel:

Não. Não escreverás um só texto
mas o que for dito e luminoso.


PS: Estranho voltar a escrever sem preocupações de novo. Porque tudo que me vem nesse exato momento são... preocupações.

sexta-feira, novembro 17, 2006

O Último Ar

A manhã começa a dar os primeiros sinais de um dia quente. A sala é abafada e cheira a tabaco, ao som de música instrumental. Ago celta.
Ele abriu a porta, com um olha de “já está ai?”, e pediu um momento.
Ao entrar, o de sempre há anos: O livro do Lacan embaixo do porta retrato, a mesa de mogno envelhecida, carcomida mas imponente. Na penumbra, o barbudo neurastênico, sempre, junto à parede observando, transcendia a pintura.
“Eu sei, sou uma mulher privilegiada. Uma mulher capaz de sentir um amor que muitos jamais irão sequer entender”...”Não consigo suportar o peso da minha própria existência; não tenho mais ânimo pra resistir e me levantar, não tenho por quê”.
Não tem porquê? O que você não tem, na verdade?
... “é como quando se vê duas pessoas que andam lado a lado, à distância, em nossa direção. Elas parecem mesmo estar lado a lado. Mas apenas caminham na mesma velocidade, uma a alguns passos a frente da outra”.
“Não diga elas, diga eu”.
“Sim, sim... em algum momento pode até parecer que conversam, que compartilham o mesmo trajeto diariamente, mas nunca se viram antes. É assim que eu me sinto em relação ao mundo”.
“Às vezes, andar lado a lado não significa estar junto, afinal”.
“Olho para ele, é como se fosse dizer algo, mas estou distante. Imagino quantos são os que de dentro de seus próprios passos, como eu, já imaginaram andar lado a lado”.
“Mas eu e ele, sabe, vivemos no mesmo tempo e em tempos diferentes. Eu estou... estou...”
“Está? Como você está?”
“... morta”.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Monografia (ou... ode aos títulos explicativos)

Meus olhos, se revoltam, exaustão precoce. Escreve é m,ais simples quanto você não está tentando convencer que está certo. Eu não costumo ligar muito, mas dessa vez, o método exige. Vou deixando pequenos pedaços de mim na tela do computador, coisinhas que eu venho acreditando nos últimos anos, e que o meu orientador vai mandar tirar se tiver o mínimo de bom senso. Torcer para que não tenha. Não vai sobrar nada. Às vezes, prefiro me imaginar incompreendido, mas não ignorado. É preciso frisson, e agora em conjunção com os ouvidos e olhos do mundo.