sexta-feira, junho 30, 2006

ReleituraS (ou... ainda sobre o existencialismo)

O existencialismo funda a liberdade e a responsabilidade do homem. Existimos sem que sejamos antes definidos. Nada nos precede. O medo do desamparo e do desconhecido. Mas, fora isso, ando vendo que os existencialistas também consideraram de tudo um pouco. Kierkegaard era cristão dedicado, Dostoievsky era greco-ortodoxo fanático. Beckett era burgues e protestante, mauricinho. Sartre não acreditava em força divina, e Heidegger só pensava definir o famoso Ser. O existencialismo deixa o homem pelado no meio do deserto, por tornar cada um mestre de seu destino. Pela impossibilidade de ser recompensado por uma força maior que o acaso.

Então, chegamos a três corolários:

A vida está repleta de absurdo; (gosto de pensar sobre isso)

A espécie humana tem livre-arbítrio; (discordo)

A vida é uma série de escolhas. (concordo plenamente)

A mim, fica o peso da responsabilidade de sermos livres. E eu só não discordo totalmente com essa plena liberdade porque as regras sociais são o resultado da tentativa dos homens de limitar suas próprias escolhas. E como bom behaviorista, considero que a liberdade é contingencial. Então, falo de liberdade e não de livre-arbítrio. O que me leva a tirar algumas conclusões. Talvez, a grande vitória do indivíduo é perceber o absurdo da vida é aceitá-la. Porque são muito poucas decisões não têm nenhum tipo conseqüência negativa, e também são poucas as situações ruins que não têm um lado bom. Mas, se você toma uma decisão, deve levá-la até o fim.

Assumir responsabilidades. Essa definição deveria ser adicionada ao verbo “crescer” no dicionário. Porque ao crescer, vemos o peso da responsabilidade de sermos livres. As regras sociais nada mais são do que resultado da tentativa dos homens de limitar suas próprias escolhas, de por abaixo um ideal de que podemos simplesmente fazer o que quisermos. Frente a isso, o ser humano se angustia. Porque a liberdade implica escolha, que só o próprio indivíduo pode fazer. A que a própria "não ação", por si só, já é uma escolha. Arriscar-se, procurar a autenticidade, é uma tarefa árdua, uma jornada pessoal que o tal Ser deve empreender em busca de si mesmo.

Mas sinto que tudo na vida é uma questão de escolha. Todo e qualquer comportamento, regido pelos mesmos princípios. Passei dois anos estudando esse tema cientificamente, bebendo das melhores fontes. E ainda o faço com afinco. Mas embora todo o cientificismo racional tenha me feito bem, continuo ainda a precisar do absurdo. O segredo parece ser aceitar e viver as conseqüências de nossas próprias escolhas, mesmo que não sejamos inteiramente livres. Mesmo que, mesmo após tanta vida e tanta carga, tanto estudo, ainda tenha precisado encontrar alguém que me ensinasse que a felicidade também é uma questão de escolha. Que escolher também é ser feliz.

domingo, junho 25, 2006

38

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As velas já tinham parado de queimar. As flores ensaiando o murcho. Entrou pela sala, sem saber o que dizer. Muito porque não havia algo que pudesse ser dito. Porque sabia que poderia ter sido um pouco mais disponível, ou ao menos ter chegado mais rápido. Aproximou-se, e ela, ao lado do caixão, levantou-se e o abraçou. Mudo, porque sabia que ela não ia ouvir. Há muito ela já não ouvia bem. E ela só queria falar, já que sabia que aquele era o momento em que tudo deveria ser lembrado, sob pena de virar esquecimento. E ele só queria tirá-la dali, livrá-la da dor.


Penalizou-se porque sabia que deveria ter estado ali antes. Não para salvar ninguém, porque entendia que não poderia ter feito nada. Mesmo antes de ele nascer, seu tio já era alcoólatra. E todos ali sabiam que não aquilo não ia durar. Que talvez tivesse sido o melhor para ele. Sabiam que não tinha mais condições de cuidar da própria vida, já há alguns anos. Tinha perdido o motivo. Todos entendiam isso e choravam. E, se choravam, era por eles mesmos, não pelo corpo. E de repente percebeu que, mesmo na tristeza coletiva, nada é mais particular do que o sofrimento.


E viu-se consolando pessoas que mal conhecia. E ajudando a resolver pequenos problemas que, dada a situação, era o mínimo que podia fazer. E se viu fora de si, observando de cima. Dividiu-se entre o que precisava fazer e o que precisava pensar. E as partes trabalharam melhor em separado. Ele, que queria se sentir mais culpado, acabou por se fortalecer mais um pouco, embora isso não o tivesse tornado mais alegre, ao momento. Esperou para chorar depois do enterro enquanto, sozinho, saboreava um sorvete, que é mais gostoso em praça de cidade do interior.

°°°



A todo espírito sem descanso.

quarta-feira, junho 21, 2006

Solidão é o que você segura as entre as mãos logo após retirá-las dos bolsos vazios.

... [porta batendo]


- Oi, Sr. Quiroga.


- Oi! Como vai?


- Vou... indo, por aí...


- Uhnm...


- Tentando alcançar discernimento suficiente pra ser o adulto que hoje me assombra antes de dormir.


- Ahnm... muito bom.


- E o que o senhor tem pra mim?


- Algo bom. Chegou a hora de você brilhar, e fazer isso a despeito de qualquer insegurança. Não que o temor vá embora. Continuará ai, como pano de fundo de seu pensamentos.


- Então...


- Então não é ele que guia seus passos. Você sabe o que te guia agora?


- Sim. Sei sim.

terça-feira, junho 13, 2006

SobrE HojE (ou sobre qualquer outro dia)


Não gostava de datas representativas, do convencionado. Em verdade, achava que não fazia diferença alguma, porque sempre achou que não era a data o importante.

Mas tinha escolhido aquele momento específico para contemplar algo de raro: o encontro precioso do que não se pode classificar com o que não se pode avaliar.

Não acreditava mais que pudesse ser possuidor de palavras, de termos suficientes para definir com razão e consciência tudo o que, na verdade das entrelinhas, já falava por si.

Lembrou-se de que já tinha visto tantos dizerem absurdos ou ligarem aquilo a fisiologias. Falarem com algum conhecimento de causa do que certamente desconheciam.

E há muito ia que não se dava por sonhar. Em sua teoria obsessiva, considerava que sonhar equivalia a destruir qualquer chance que o conteúdo se tornasse real.

Achava que nada se materializa igual ao que se sonha. E não queria ter idéia do que o mundo pudesse pensar a seu respeito, do que francamente já não importava.

Assim, tinha motivos evidentes para rir de si. Ria com gosto e sabor. Ria em cores que não se escondem. Gostava de se encontrar ao descobrir o caminho percorrido.

Por que já tinha aprendido a colecionar sorrisos e isso havia aprendido bem. Mas ainda guardava-os no fundo da alma e não sabia, ao certo, o que significavam.

Foi quando, de repente, conheceu a interprete de sorrisos. E não foi apenas por pura coincidência. Acontece que já havia sorrido para ela, mesmo sem de todo o saber.

Escutou com cuidado, até descobrir todas as partes da música, incluindo o silêncio. E descobriu que o som não findava. Havia se transformado em algo mais que eterno.

Sentiu dois verbos intransitivos se completarem no fim da frase. Sentiu-se parte da imensa e grandiosa energia que circulava nos bastidores de tudo o que era bom.

Viu suas defesas entre o pouco que tinha e o tanto que queria ruírem na hora em que veio a compreensão. Eis que, surpreso, identificou seu sangue perdido em outras veias.

Respirou fundo e fechou os olhos, transpirou. E viu que, ao fim, coragem servia era para isso mesmo. Para fechar os olhos, prender a respiração, pular de cabeça no precipício.

Para se achar no direito de ousar. Para não precisar de sonhos. Para não depender de heróis. Para dobrar o tempo com as próprias mãos e aprender e reaprender a sorrir.