sexta-feira, novembro 17, 2006

O Último Ar

A manhã começa a dar os primeiros sinais de um dia quente. A sala é abafada e cheira a tabaco, ao som de música instrumental. Ago celta.
Ele abriu a porta, com um olha de “já está ai?”, e pediu um momento.
Ao entrar, o de sempre há anos: O livro do Lacan embaixo do porta retrato, a mesa de mogno envelhecida, carcomida mas imponente. Na penumbra, o barbudo neurastênico, sempre, junto à parede observando, transcendia a pintura.
“Eu sei, sou uma mulher privilegiada. Uma mulher capaz de sentir um amor que muitos jamais irão sequer entender”...”Não consigo suportar o peso da minha própria existência; não tenho mais ânimo pra resistir e me levantar, não tenho por quê”.
Não tem porquê? O que você não tem, na verdade?
... “é como quando se vê duas pessoas que andam lado a lado, à distância, em nossa direção. Elas parecem mesmo estar lado a lado. Mas apenas caminham na mesma velocidade, uma a alguns passos a frente da outra”.
“Não diga elas, diga eu”.
“Sim, sim... em algum momento pode até parecer que conversam, que compartilham o mesmo trajeto diariamente, mas nunca se viram antes. É assim que eu me sinto em relação ao mundo”.
“Às vezes, andar lado a lado não significa estar junto, afinal”.
“Olho para ele, é como se fosse dizer algo, mas estou distante. Imagino quantos são os que de dentro de seus próprios passos, como eu, já imaginaram andar lado a lado”.
“Mas eu e ele, sabe, vivemos no mesmo tempo e em tempos diferentes. Eu estou... estou...”
“Está? Como você está?”
“... morta”.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Monografia (ou... ode aos títulos explicativos)

Meus olhos, se revoltam, exaustão precoce. Escreve é m,ais simples quanto você não está tentando convencer que está certo. Eu não costumo ligar muito, mas dessa vez, o método exige. Vou deixando pequenos pedaços de mim na tela do computador, coisinhas que eu venho acreditando nos últimos anos, e que o meu orientador vai mandar tirar se tiver o mínimo de bom senso. Torcer para que não tenha. Não vai sobrar nada. Às vezes, prefiro me imaginar incompreendido, mas não ignorado. É preciso frisson, e agora em conjunção com os ouvidos e olhos do mundo.

sábado, outubro 14, 2006

Av. Brasil

- Tio, porque os homens da televisão no debate se ofendem tanto?
- Isto é política menino...
- Mas tio, tá engraçado, um fica falando que é melhor que o outro
mas, pelo visto, os dois roubam, né?
- É, pelo que os dois mostram...
- Mas tio me explica uma coisa que eu estou curioso... Se os dois têm provas que ambos são desonestos, por que é mesmo que vamos votar neles?
- Por que vivemos em um país democrático, menino, e nosso voto é obrigatório.

segunda-feira, outubro 02, 2006

Eu queria te dizer que...

Tenho mania de querer inventar moda às vezes. Uma delas, de tentar inventar a cada dia um jeito diferente de dizer que seus olhos são lindos. Tentar reconhecer você em mim por meus próprios gestos. Você me capta de um jeito que, ainda que me visse filmado, eu não perceberia. Até aquele movimentozinho que você faz com a boca, a forma de você ajeitar meus óculos.

O silêncio de hoje é diferente do silêncio de quando conversamos pela primeira vez. Aquele que tinha o peso do suspense, do talvez nunca mais nos falarmos. Se aquele ônibus tivesse atrasado ou adiantado. Eu tenho medo só de pensar no que poderia não ter acontecido. Se eu não tivesse me sentado ao seu lado, apreensivo, com curiosidade e um coração batendo mais forte.

Não é necessário inventar uma forma mais complexa de dizer as coisas. Você sabe disso muito bem e, por isso, diz com os olhos. Não há momento melhor no dia que aquele em que olho dentro dos seus olhos e sinto sua respiração. Olhos cansam fácil, parece que deveriam se agüentar mais nos detalhes. Dos seus olhos que deixam serem vistos e que me deixam ver para além deles.

terça-feira, setembro 26, 2006

O maior post que eu já escrevi

ai ai, velha diferenciação aristotélica entre potência e ato...

que entende de eletrônica sabe que é possível sim simular com perfeição os analógicos, em teoria. em teoria, pq vc precisaria de tecnologia tão avançada para imitar a onda igual, que, até o presente momento, não é economicamente viável.

enfim, na minha opinião, nas modulações tem tudo pra os digitais desbancarem os analógicos, até porque a tecnologia permite em muito expandir os limites por aí. Quanto a distorções, acho que vai demorar muito ainda, se é que um dia o analógico vai ficar obsoleto realemnte.

alias caso isso aconteça, temos outro problema: os grandes efeitos digitais em maioria são simulácros de efeitos analógicos. se estes caírem em desuso, o que os digitais vão imitar. é só conferir os efeitos próprios da line 6 pra ver que criatividade não é lá o forte deles, é mais emulação mesmo.